É na cidade e com a cidade que a gente se encontra!

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16 jun É na cidade e com a cidade que a gente se encontra!

Com o nascimento do filho, a arquiteta urbanista Juliana Marques Awad despertou um novo olhar para a cidade, um que refletia o encantamento e maravilhamento do filho para o mundo. Assim nasceu o Cidadeiras, projeto que visa potencializar as relações das crianças com as cidades, através de ações educativas que promovem tempo e espaço para a criação de vínculos afetivos com os lugares. Com isso, espera-se que possam cocriar espaços urbanos de melhor qualidade, e assim, cidades mais humanas.

Por Raika Julie Moisés

Diante do cenário atual, é possível planejar as cidades? Como imaginá-las na pós-pandemia? 

Sim, é possível. Claro! A questão que fica mais urgente neste momento é “como” vamos planejar nossas cidades daqui para frente. O pensar as cidades e seuimage17 planejamento tem tido como foco, nos últimos anos, a participação da população nos processos decisórios e nos modelos de desenvolvimento urbano que apostam no aumento das densidades habitacionais e na mistura de usos, em prol do desenvolvimento sustentável. No pós-pandemia, a dinâmica das cidades deve mudar bastante, o que automaticamente interfere na forma de planejá-las. Tudo indica que as pessoas passarão a viver mais localmente, valorizando mais a vizinhança, serviços e comércio presentes no entorno, além dos espaços públicos, das áreas verdes, dos lugares de sol e de paisagens urbanas de qualidade. A tendência é que o automóvel perca ainda mais sentido, já que o home office deve permanecer no cotidiano das pessoas e das empresas. Em termos de mobilidade, ainda enfrentaremos uma questão há muito tempo conhecida, que é o deslocamento pendular da população socialmente mais carente até os locais de trabalho. Mas, para isso, precisamos de uma nova cultura. Enquanto Cidadeiras, sempre defendemos a cidade como local de encontro por excelência, e temos falado que nos últimos tempos essa essência da cidade vinha sendo deixada de lado. Pós-pandemia voltaremos a usar a cidade, a nos encontrar nos espaços públicos, a procurar a natureza, a cuidar uns dos outros e do nosso lugar.


OMS recomenda a existência de 12m2 de área verde por pessoa nas cidades, num claro reconhecimento da importância da natureza para a saúde e o bem-estar da população urbana. Como as cidades brasileiras podem avançar com qualidade em direção a esta meta, em benefício das infâncias urbanas e de todos os cidadãos? 

Talvez tenha chegado a hora de redimensionar as escalas de atuação das políticas públicas urbanas, ou pelo menos introduzir de fato uma nova escala, mais local, de intervenção nos espaços públicos, com participação mais efetiva da população e de organizações da sociedade civil. Ano passado, fomos para a Antuérpia, na Bélgica, para apresentar o projeto “Brincadeiras no Quarteirão” no seminário Child in the City: children in the sustainable city. Nas questões ambientais, a prefeitura local, junto com a sociedade civil, conduz um projeto chamado Green Streets (Ruas Verdes) que começou com o pedido de moradores que desejam suas ruas cada vez mais verdes. Os moradores que cadastram suas ruas recebem subsídio do poder público para a compra de mudas, e a permissão para quebrar a calçada e implantar um canteiro verde na fachada de suas casas. Iniciativas que partem da sociedade civil com apoio do poder público têm grandes chances de se tornarem reais e de se manterem ativas. São ações que nascem do senso de pertencimento e que se perpetuam, com impactos sensivelmente positivos. O que acontece na cidade e a forma como ela é construída é reflexo de seus moradores e de seus estilos de vida. 

Que aspectos são essenciais e que estratégias precisam ser adotadas para garantir que os espaços públicos das cidades sejam amigáveis à infância? 

Uma das intenções do projeto das Cidadeiras quando nasceu foi potencializar image13e colocar holofotes sobre a importância da escuta das crianças, que são também protagonistas das cidades. Escutar as crianças é essencial para garantir que os espaços públicos sejam amigáveis. É fundamental também que as pessoas tenham vínculo com o lugar, vínculo com a cidade. Porque, com vínculo, há cuidado. Um dos objetivos das ações educativas promovidas pelas Cidadeiras é proporcionar vivências nos espaços públicos, experimentações, investigações das crianças e adultos. As crianças mostram a cidade ao adulto em suas miudezas, e lhes revelam encantamentos, maravilhamentos pelo simples, pelo brincar com o que se apresenta pelo caminho. As vivências fazem parte do processo de criação de vínculos de pertencimento. Acreditamos que, quando as crianças vivenciam desde pequenas os lugares em que habitam, estabelecem vínculos de pertencimento e memória e se tornam  jovens e adultos com relações estreitas e de compromisso com a cidade e seu cuidado.

Como a sociedade civil, aliada ao poder público, pode contribuir para criar cidades amigas da criança? 

Na verdade, não existe uma fórmula mágica. A construção de uma cidade amiga das crianças precisa ser coletiva e diária, e precisa emergir da vontade genuína de cada cidadão e do poder público, como seu representante. A grande contribuição da sociedade civil é justamente demonstrar esta vontade e se organizar para que ações locais aconteçam, desenvolver projetos, cocriar com o apoio do poder público. Assim como nas Ruas Verdes da Antuérpia, a sociedade civil pode atuar junto ao poder público para que ações que envolvam as crianças aconteçam. É uma boa ação que serve de inspiração para uma outra boa ação e que, conjuntamente, adquirem um significado maior.

image15Que benefícios uma cidade inteligente pode trazer para as infâncias urbanas e para todos os cidadãos?

Muitas cidades no mundo, como Antuérpia e Freiburg, por exemplo, pensam as crianças e as trazem para o centro do debate urbano. A inteligência de uma cidade está justamente em conhecer sua realidade, suas vocações e seus desafios e, assim, poder usar os melhores recursos disponíveis para se desenvolver de forma sustentável, ou seja, socialmente, ambientalmente e economicamente equilibrada. Costumamos dizer que, se uma cidade é boa para a criança, ela é boa para todos os cidadãos. Desta forma, colocar as crianças no centro das diretrizes e políticas urbanas é uma enorme contribuição ao planejamento das cidades. Cidade inteligente é aquela que faz uma boa gestão de seus dados e informações e os aplica de forma eficiente nas políticas de desenvolvimento.

O que as crianças nos ensinam a partir da relação que desenvolvem com a cidade?

As crianças nos ensinam diariamente sobre seu olhar explorador, pesquisador e de encantamento. A curiosidade com que elas descobrem a cidade e suas relações coloca os adultos em reconexão com a cultura. Até o início da pandemia, víamos a maioria das crianças terem suas relações com a cidade a partir das janelas dos carros, dos ônibus, ou apenas a partir da perspectiva de suas casas, apartamentos e escolas, sem mencionar o isolamento no interior da maioria dos shopping centers. Este tipo de relação com a cidade leva à insegurança, à falta de pertencimento, ao isolamento social, à fobia pela diversidade. Ao passo que, se um adulto se propuser a deixar uma criança conduzi-lo pelos lugares da cidade, a criança vai poder mostrar outra forma de habitar esses lugares. Para as crianças, a escolha do caminho, por exemplo, não é necessariamente definida pelo como chegar o mais rápido possível do ponto A ao ponto B (a não ser que essa seja a brincadeira), mas sim por todas as descobertas que o caminho oferece. As crianças nos apresentam outras relações com o tempo. Elas essencialmente nos ensinam a viver a cidade, a estabelecer relações com os outros, a brincar, a imaginar, a pesquisar com o corpo. Elas nos ensinam o verdadeiro valor do lugar.

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Se você fosse uma cidade, o que recomendaria para garantir sua existência no futuro?

Sou parte da natureza e sou uma obra de arte construída dia a dia por cada um de vocês. Cuidem de mim, juntos. A cidade também precisa de amor!

 

 

 

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