Afinal, o que nos move?

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12 abr Afinal, o que nos move?

Letícia Sabino, fundadora da ong SampaPé, conta como as escolhas que fazemos ao nos deslocar mudam nossas percepções de cidade e nossa qualidade de vida

O que é perto? O que longe? Como você circula pela cidade? E de que modo esse circular te devolve uma impressão de cidade? Todas essas questões começaram a pipocar na mente de Letícia Sabino quando ela foi fazer um intercâmbio na cidade do México. “Estudava administração de empresas na Fundação Getúlio Vargas e morava em Santo André, município da região metropolitana de São Paulo. Ia e voltava todo dia de carro para a faculdade. No semestre que passei na Cidade do México, apesar do contexto muito parecido, de megalópole, com trânsito caótico, eu não tinha carro e comecei a me deslocar de outra forma”, conta. “Então vi como a escolha do local de moradia e o padrão de deslocamento influenciavam nos serviços a que tinha acesso e, no limite, na minha qualidade de vida e conhecimento da cidade.”

No início, Letícia optou por morar perto da faculdade na nova cidade. “O bairro era só residencial, não tinha nada próximo. Então, acabei me mudando para um local a uma hora de ônibus da faculdade, mas com acesso a vários serviços, e criei um afeto muito grande pela cidade, pelas pessoas, por esse estar na rua, comer na rua, conversar. Os mexicanos têm uma cultura de rua fascinante”, diz. Letícia voltou pensando: será que em SP não acontece nada? E transformou sua experiência e seus questionamentos na ONG SampaPé, fundada em 2012 e formalizada em 2017, e em um mestrado em Planejamento de Cidades e Design Urbano cursado no  University College London (UCL), na Inglaterra, com dissertação sobre empatia no espaço público.

E aí, acontece algo nas cidades brasileiras?

São Paulo é minha cidade, e ela é muito diversa, mas percebi que estávamos muito atrasados em promover ações de humanização. O México já tinha, em 2010, sistemas de bicicletas compartilhadas e ruas abertas para as pessoas, por exemplo. Coisas que então a gente nem sonhava. Vi o quanto a nossa cultura do carro nos leva a estar fechados. Foi daí que surgiu a ideia do SampaPé, de tentar melhorar a experiência do caminhar nas cidades, com as pessoas. Minha vivência no México me fez entender que o deslocamento é muito importante, e que às vezes fazemos escolhas equivocadas, mesmo quando temos outra opção. O Sampapé se propôs, inicialmente, a mudar essa chave, oferecer uma experiência diferente de cidade. Foi assim que começamos a bolar passeios a pé.

Leticia Sabino SampapeComo eram essas caminhadas?

No começo, o caminhar funcionou como uma ferramenta para observar e entrar em contato com a cidade, não tinha tanto a ver com mobilidade, com estudar como as pessoas se deslocam. Mas o contato com os cicloativistas nos levou a pensar nessa direção, a entender o andar também como meio de transporte. E fomos vendo como isso altera as coisas, como é um tema em disputa nas cidades. Atualmente, os pés são o principal meio de deslocamento nas cidades brasileiras: de acordo com pesquisa da ANTP, 41% dos deslocamentos são feitos exclusivamente a pé. Em São Paulo, por exemplo, um terço das viagens acontece unicamente caminhando (31% segundo a pesquisa origem/destino, realizada pelo Metrô).

Como fazer para melhorar a experiência de caminhar?

Quando falamos de caminhar, ocorre algo diferente do consenso que se tem com relação à bicicleta, por exemplo. Para a bike, a ideia é que, se a cidade constrói infraestrutura, as pessoas começam a utilizá-la mais como meio de transporte. Com a caminhada ocorre muitas vezes o oposto: existem bairros com ótima infraestrutura: boas calçadas e sinalização, pelos quais caminha-se muito pouco.

Em São Paulo, acontecem viagens a pé que não deveriam ocorrer: as pessoas caminham muito, e em condições precárias. Então, deveríamos melhorar os locais pelos quais as pessoas já passam. Segundo dados da pesquisa origem/destino (2007), em bairros como Pinheiros e Moema, por exemplo, em média 15% dos percursos são feitos a pé, embora as condições sejam relativamente boas. Já em bairros da periferia, essa porcentagem sobe para mais de 50% dos percursos e há, inclusive, trajetos grandes, de 5 km, vencidos a pé, em condições bem adversas. O ideal seria que se fizesse a pé trajetos até 3 km, distância que pode ser vencida em até 30 a 40 minutos de caminhada. A 99app também realizou uma pesquisa e descobriu que a maior parte (42%) dos deslocamentos de carro cobrem distâncias de até 2,5 km, ou seja, distâncias fáceis de percorrer a pé ou em bicicleta.

Existe algum dado sobre como se deslocam as crianças?

Não tenho dados específicos, com esse recorte, mas estamos fazendo um trabalho no Jardim Nakamura, na zona sul de São Paulo, criando com os moradores um sistema de sinalização e legibilidade do bairro. Ali, muitas crianças vão sozinhas ou com outras crianças até a escola: 78,5 % fazem o trajeto a pé. A lógica pública é que, se você mora a mais de 2 km, pode solicitar transporte escolar. Se está a menos de 2 km, o governo considera essa uma distância passível de se caminhar. A questão é que não se olha para nenhum outro indicador, só para a distância. E se a criança precisa atravessar uma rodovia, ou uma grande avenida, como por exemplo a MBoi Mirim, que tem um índice de atropelamentos altíssimo? Como garantir um caminho seguro? Não temos políticas públicas nesse sentido.

No jardim Nakamura, as vans que fazem o transporte escolar deixam as crianças e saem de ré, porque a escola fica ao lado de um escadão, não há outra forma. Isso já gerou vários acidentes. Por isso estamos trabalhando na sinalização de roteiros a pé, utilizando pictogramas e uma linguagem acessível que possa evidenciar tanto pontos turísticos e de importância cultural para o bairro – para que as escolas possam visitá-los –, quanto melhorar a segurança dos percursos que as crianças fazem. Esse projeto ajudou a fazer com que o Centro de Engenharia de Tráfego (CET) implementasse seu projeto de rota escolar segura na região.

É um trabalho é replicável? Poderia ser adotado em outros bairros para incentivar a ida a pé para a escola?

A metodologia é replicável, ou seja: o como fazer, que tipo de locais se pode incluir para valorizar um território, como escolher os lugares e escrever sobre eles. Mas cada localidade tem seu contexto único. A ideia é valorizar os bairros, ajudar a conservar lugares com valor cultural, perceber as distâncias que se pode percorrer de um modo diferente. No Jardim Nakamura, por exemplo, fizemos sinalizações nos grafites de um escadão, no local onde o bairro começou, numa mina d´água, no campo de futebol de várzea e nos equipamentos públicos como UBS e escolas…

O SampaPé pretende influenciar políticas públicas, ajudar a criar legislação nesse sentido?

Uma de nossas frentes é essa. Quando foi realizado o decreto das calçadas, nós monitoramos o andamento e  propusemos melhorias. Igualmente com os Planos de Mobilidade. Em ambas as ocasiões, fizemos eventos para trazer mais gente para a discussão. Também formamos parte de um comitê de acompanhamento para o fortalecimento das ruas abertas, e ajudamos na confecção desse decreto, além de termos idealizado e feito a mobilização para a realização da Paulista Aberta. Mas com a mudança de gestão, as reuniões foram esvaziando, não aconteceram mais. Um dos grandes problemas da cidade é a enorme rotatividade de secretários e subprefeitos. Fica difícil propor e estabelecer práticas que durem, já que cada um quer imprimir sua “marca”, mas logo sai e os projetos ficam pela metade.

Com a abertura de ruas como a Paulista, que foi emblemática e teve uma enorme adesão, era esperado que aparecessem novos conflitos. Nesse sentido o conselho se faz importante. A Paulista ficou sobrecarregada. Se houvesse uma rua aberta por cada subprefeitura, melhoraria. Mas não há um olhar de gestão para incentivar esse uso. As pessoas mal sabem quais ruas estão abertas, o que acontece nelas, falta informação básica e uma programação. A prefeitura poderia ir além de apenas prover espaço para brincar ou conviver.

SampaPeComo funcionam as caminhadas com gestores públicos?

Já realizamos 12 episódios desse programa, chamado Sentindo nos Pés, que convida gestores e gestoras públicos a fazer uma caminhada inteiramente filmada. Com ele, procuramos incentivar uma tomada de consciência desses gestores, no sentido de implementar melhores políticas públicas. Eles e elas, em geral, não têm a menor ideia das condições que vão encontrar. O percurso funciona como uma primeira sensibilização, uma descoberta.

Quando caminhamos com o Jilmar Tatto, em 2015, que naquele momento era secretário municipal de transportes, por exemplo, encontramos gradis no meio do caminho que precisamos contornar, na altura do Paraíso. Ele simplesmente os pulou e atravessou. Depois, pediu à CET que tirasse esses gradis que barram o caminho dos pedestres e respeitasse o traçado natural na travessia. Os gradis foram retirados de vários pontos, como a esquina da Paulista com a Brigadeiro Luiz Antônio, por exemplo.

E como é andar com as crianças?

Fizemos alguns passeios com crianças pela Vila Madalena e percebemos que o olhar infantil sobre a mobilidade é muito diferente. Ao planejar essas caminhadas, precisamos incluir algumas paradas em praças, para conseguir ter uma pausa e contar coisas aos pais enquanto as crianças ficavam soltas. Também promovemos ações lúdicas: demos adesivos de corações para as crianças colarem no que gostavam pelo caminho. Tentamos, ainda, evitar subidas muito íngremes, mas um menino disse: “Eu adoro subidas! São a melhor parte!”.

Então, vimos que muitas vezes pensamos ou planejamos percursos com cabeça de adulto. Para as crianças, os empecilhos não são os mesmos. Outro exercício bacana foi fazer um Diário da Caminhada, no qual as crianças podiam coletar coisas, imprimir o que coletaram no papel, ouvir o que as pessoas diziam na rua e registrar. Isso foi nos dando a percepção de como as crianças lidam diferente com a sujeira, por exemplo: elas recolhiam inúmeras coisas do chão, os pais tinham mais nojo. E também como vivenciam os percursos. Para elas não tem cansaço, atraso, pressa, os deslocamentos não precisam virar um transtorno. Se você fizer de cada trajeto um percurso vivido, com coisas a observar, brincadeiras, histórias, aquilo é mais que um deslocamento, vira uma diversão, é tempo ganho!

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