Crianças na prancheta

Foto em preto e branco de um grupo de crianças brincando, em um parque de terra, com alguns caixotes e pedaços de madeira. Ao fundo muitas árvores.

21 dez Crianças na prancheta

Como seria uma cidade projetada com a ajuda das crianças? Por que elas deveriam ser incluídas na hora de pensar os espaços pelos quais todos circulamos?  A arquiteta Paula Martins Vicente estudou o tema e traz algumas respostas

Paula Martins Vicente estava terminando sua graduação na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) quando decidiu realizar um trabalho de extensão universitária. A ideia era propor soluções para a apropriação e o uso do Parque Municipal Pinheirinho d’Água, na zona noroeste da cidade, pertencente à Subprefeitura de Pirituba. “Em 2012, o Conselho Gestor do Parque entrou em contato com a FAU-USP, porque o local havia sido implantado mas não estava sendo utilizado pela população”, conta.

O parque foi concebido e projetado conjuntamente entre moradores, estudantes de pós-graduação da FAU e o poder público, mas sua implantação, que só ocorreu em gestões posteriores, pouco levou em consideração as ideias iniciais. Com isso, a população ficou desmobilizada. O trabalho conjunto de Paula com outros pesquisadores, coordenados pela professora Catharina Lima, foi repensar o uso do local junto com as crianças da Escola Municipal de Ensino Fundamental Deputado Rogê Ferreira, construída dentro do parque. Durante uma semana, a escola parou para entender o espaço e as pessoas que o circundam, propor soluções e projetar.

Crianças de mãos dadasPor que o parque não estava sendo utilizado, em uma cidade como São Paulo, tão carente de áreas verdes?

Apesar de estar em uma área com poucas opções de lazer, a questão é que pagar ônibus para levar dois filhos, mais um ou dois adultos e comprar ou preparar um lanche, sai caro para essa população. Acaba não sendo viável. Os poucos parques utilizados naquela região, o Anhanguera e o do Jaraguá não são muito acessíveis, pois para chegar até eles muita gente tem que atravessar as rodovias Anhanguera e Bandeirantes.  Não adianta criar áreas de natureza, de lazer, sem pensar na mobilidade, no acesso, na questão financeira. Além do mais, quando o Parque Pinheirinho foi inaugurado, desrespeitando as diretrizes iniciais do projeto elaborado com a população, ele não tinha mobiliário, equipamentos, nem uma programação para ativar o local. Por isso, as pessoas nem o reconheciam como parque. É uma área muito espraiada, e os poucos mobiliários que havia quando chegamos estavam quebrados ou sem condições de uso.

Como foi o processo com a escola? Qual é a diferença entre um adulto e uma criança projetando?

A escola parou durante uma semana para estudar e entender os espaços, sua história, fazer oficinas de maquete e projeto, pensar como a escola poderia funcionar utilizando o parque. Foi um momento intenso, no qual se refletiu sobre o que é um parque público, o que ele deveria ter, quais são as necessidades de lazer das pessoas e como a escola poderia usufruir e integrar seu projeto pedagógico a esse espaço. O envolvimento dos professores e da direção foi fundamental.

As crianças participaram integralmente e trouxeram elementos novos, que não tinham sido pensados. O parque tem nascentes, córregos e por isso há várias restrições ambientais e de construção. Mas as crianças conseguiram projetar mais livremente, inclusive com soluções que os arquitetos não tinham aventado. Elas não ficaram tolhidas, a princípio, por essas restrições. Tem um córrego? Vamos fazer uma tirolesa e passar por cima! Elas propuseram coisas como arvorismo, um observatório de estrelas para usar o parque à noite, espaços para estudos… Tiveram mais liberdade na hora de sugerir e por isso criaram várias soluções fáceis, simples. Foi um grande ganho!

Crianças brincando em um parquinhoPor que as crianças ocupam cada vez menos o espaço da cidade e não são levadas em conta na hora de pensar esses espaços?

Existem dois pensadores nos quais me baseio muito: o psicopedagogo italiano Francesco Tonucci e o sociólogo português Manoel Sarmento. Sarmento diz que existem três “Ps”: participação, provisão e proteção, quando se pensa a participação das crianças na cidade. O que acontece é que, muitas vezes, no afã (ou com a desculpa) de protegê-las, a gente acaba privando as crianças dos outros “Ps”. Elas não caminham sozinhas pela cidade, não participam, nem opinam sobre a sua planificação. O que é uma pena, porque a cidade, por si só, apresenta um caráter educativo: é nela que as pessoas aprendem a se localizar, conviver e desenvolver a cidadania. O Tonucci escreveu um livro chamado “Quando as crianças dizem: Agora chega” que também levanta pontos interessantes. Ele diz que, assim como as crianças, existem vários atores que não são priorizados quando se pensa a cidade, como pedestres ou os idosos. Eles são invisibilizados. A cidade, na verdade, é pensada quase que exclusivamente para o homem adulto que dirige um carro. É essa a visão que se sobrepõe a tudo.

Como competir com essa visão hegemônica? Como equilibrar as vozes?

Acredito que cada vez que esses atores abandonam o espaço público, os automóveis o tomam. Os espaços e as visões de cidade estão sempre em disputa. Quando pedestres, mulheres e crianças tomam uma rua, os automóveis recuam, diminuem a velocidade. Sou confiante de que podemos chegar a um equilíbrio maior. Para isso temos de mudar a nossa visão, inclusive quando se fala de as crianças participarem. Os adultos sempre se colocam como se eles tivessem de autorizar as crianças a se manifestarem. Na verdade, as crianças são sujeitos e detentoras de direitos. A participação das crianças na construção do espaço coletivo não pode ser vista de maneira apenas consultiva. Existe uma grande diferença entre os ambientes construídos PARA as crianças e aqueles construídos COM as crianças. Se elas forem incluídas, chamadas a opinar, planejar e fazer, o resultado é que teremos cidades melhores para todos.

Estamos fartos de imaginação, de pensar e desejar soluções diferentes para as cidades?

Sim, acho que estamos em um momento de muita descrença. Às vezes as pessoas se engajam, há mobilização e propostas mas, quando essas vontades não se concretizam, como ocorreu no caso do parque Pinheirinho, elas desanimam, se desmobilizam. Se você chega com uma nova proposta, a energia volta a ser ativada. É preciso tentar construir junto. E é muito importante o arquiteto não chegar como aquele que “sabe”, que “ensina”. Eu não preciso iluminar nada, apenas ativar um desejo de fazer. As pessoas sabem o que querem. Elas precisam é de uma orientação para construir.

No Pinheirinho, por exemplo, considero que, mesmo que o projeto a que chegamos com as crianças, professores e moradores não tenha sido ainda implantado, houve grandes avanços. As atividades quebraram a ideia de um aprendizado fechado em salas com disciplinas fixas, e deram às crianças a possibilidade da interação do corpo e do movimento com o aprendizado. O processo teve início com o pensar o parque e terminou em questões mais amplas, como a cidadania. Só das escolas do entorno participarem, pensarem no que seria um parque educador, planejarem como esse espaço poderia ser aproveitado, foi um ganho. Elas se apropriaram do local, foram à Regional de Educação, foi um processo político-pedagógico que colocou as escolas como agentes de construção e planejamento. Eles entenderam que podiam interferir ali, o parque passou a ser delas, e as crianças participaram do processo durante todo o tempo. Em vários momentos, e para determinadas populações, não existem na cidade locais que elas possam considerar “seus”.

Menino empinando pipaFoi fácil equilibrar os desejos de todos?

Muitas vezes a gente olha o coletivo, a comunidade, como um todo, sem conhecer cada morador, sem individualizar. Claro que se você não pensar na coletividade os interesses individuais começam a se sobrepor. E até nesse sentido foi importante a participação das crianças. Elas demonstraram ser capazes de pensar no todo, não projetam apenas para elas. Elas tentam, ao planejar, contemplar o pai, a mãe, elas sabem que os adultos estarão lá. Já os adultos, quando muito, pensam em um parquinho. E só. O olhar é mais restrito. As crianças pensam na mobilidade, e até em questões mais amplas, como segurança, habitação, as desigualdades do cenário urbano.

Como essa participação das crianças no planejamento da cidade poderia aumentar?

Acho que tem muitos terrenos baldios, muitas praças mal cuidadas que podem servir como uma oportunidade, um local potencial para intervir. Quando se faz um processo participativo para a construção do espaço público, os locais são mais conservados e mais frequentados, pois os responsáveis pela produção do espaço se envolvem nesse processo de maneira afetiva e acabam se identificando com aquilo que foi construído. Quando esse processo se desenvolve em escolas, o resultado é potencializado. Talvez seja preciso pensar a participação das crianças na cidade em uma escala menor, dada a complexidade de uma cidade como São Paulo. Poderia haver um conselho de crianças por bairro, por exemplo. Essa seria uma instância na qual as crianças poderiam ser inseridas e participar efetivamente. É preciso estruturar o poder público para poder começar.