“Deixe uma horta nascer em você”

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17 abr “Deixe uma horta nascer em você”

Claudia Visoni acredita que só temos a ganhar se voltarmos a cultivar nossos alimentos

A hortelã, ativista e jornalista Claudia Visoni tem uma conexão antiga com a natureza. Bem antes de que palavras como “sustentabilidade” entrassem em seu radar, ela fazia escotismo e passava os finais de semana com a família em uma praia selvagem. “Tinha 8 anos quando a mãe de uma amiga do grupo de bandeirantes que eu frequentava voltou de um mestrado em ecologia, nos Estados Unidos, e pediu para conversar com as crianças”, lembra. “Aquele papo me marcou. Eu consegui entender o que ela dizia sobre a fragilidade dos ecossistemas e o impacto negativo que o ser humano estava criando. A partir dali, comecei a me interessar pelo assunto”, diz.

Hoje, é ela quem muitas vezes recebe crianças na Horta comunitária das Corujas, na Zona Oeste de São Paulo, onde passou a plantar, desde 2012. De enxada na mão, em uma praça pública, ela pratica o que assumiu como missão: virar veículo de conhecimento e difusão dessa prática tão essencial, feminina e milenar: cultivar os alimentos.

nathalie.artaxo_claudia.visoni-9140 (2)Você come exclusivamente o que planta?

Não, o que eu planto não chega a 20% da minha ingestão diária de calorias, mas em todas as minhas refeições como algo que cultivei. Temos que entender que a nossa segurança alimentar está ameaçada, por muitos motivos: contaminação da terra e da água, desertificação, perda de solo, perda de polinizadores, pela monocultura, pelas mudanças climáticas… Há cem anos havia milhares de tipos de arroz, de grãos, de legumes. Mas com a padronização da nossa alimentação essa diversidade se perdeu. Agora, temos que nos virar com o que existe e tentar recuperar algumas. Muita gente tem uma cabeça tudo ou nada: “se você começou a plantar, precisa viver só disso”. Eu entendo a agricultura urbana como uma garantia da nossa soberania sobre os alimentos e até como uma questão de saúde pública. Se alguém não tem  dinheiro para mais do que arroz e ovo, mas planta em seu jardim, ou em uma praça, e consegue incluir nessa refeição couve, taioba, ora pro-nobis, o prato já fica muito mais nutritivo! Nenhum agricultor vive só do que planta. Mas se você plantar três ou quatro espécies, e o seu vizinho também, isso vai sendo trocado. Cultivar é algo coletivo, não individual.


É preciso criar mais espaços de natureza na cidade?

A natureza está presente na cidade, claro que talvez não em condições ideais, mas a gente é que impede uma volta mais rápida. Qualquer um pode quebrar um pedaço de cimento em casa e plantar ou ter um canteiro de ervas, compostar. Para as crianças, isso é mais fácil ainda: um pequeno pedaço de terra proporciona contato, uma folha seca com que ela brinca é natureza, uma lagartixa que mora em casa também. Ela não precisa de uma floresta amazônica para se conectar. Nós, adultos, é que precisamos ser talvez menos fóbicos com a natureza. Temos um conceito higienista de vida que provoca a extinção de tudo. Na minha casa tem vespas, aranhas e, às vezes, baratas ou ratos. E eles são natureza também! São muito menos perigosos do que os venenos que jogamos neles. A cidade de São Paulo tem hoje 15 ou 20 hortas comunitárias onde se pode plantar. Tem parques, praças: a natureza está aqui! É questão de incentivar esse contato, de descomplicar: basta fazer para o seu filho um cavalo com batata, em vez de dar um de plástico; oferecer uma tina com água e pedrinhas; deixar brincar com um purê; fazer cola com farinha; incentivar a criança a colocar o pé na terra…


Qual é a importância desse contato ou dessa reconexão com a natureza?

Nós somos animais, somos natureza. E estar separados dela é estar separados de nós mesmos. Viver longe da natureza não é um sintoma ou uma consequência: é a própria doença, inclusive do ponto de vista bioquímico. Nós somos colonizados por bactérias, precisamos delas para ter uma flora intestinal saudável, precisamos de sol e de contato com o solo para criar defesas, para ter saúde. Existe um benefício em estar na natureza que é emocional, psicológico, mas tem estudos mostrando que isso vai além, se trata de algo bioquímico: esse contato ativa neurotransmissores que combatem a depressão, por exemplo. Só que tem gente que não põe o pé no chão, a mão na terra, que tem aflição, acha nojento. Para começar a resolver isso, o primeiro passo é admitir nossas dificuldades. Porque as crianças são fáceis de trabalhar, elas não têm fobias. Mas elas respondem a uma carga ensinada: de que a natureza é suja, perigosa. Tem gente que entra na horta, e assim que a criança está começando a plantar, começa: “Cuidado! Não vai cair! O bicho vai te picar!” É traumatizante. Acho que quem mais precisa mudar de atitude hoje são os adultos.


Você está ajudando a montar a união de hortas comunitárias que foi divulgada com um passeio de bicicleta passando por algumas delas. Esse programa será regular?

Sim, as pessoas das várias hortas da cidade se conheciam e se falavam, mas surgiu a necessidade de ter um fórum para troca de demandas e experiências. Então, tivemos algumas reuniões, definimos certos parâmetros para o que é uma horta comunitária – como não utilizar veneno ou adubo químico, ter uma gestão compartilhada, permitir colheita livre, ser aberta a todos, plantar para consumo não com fim comercial, entre outros. Agora, organizamos um passeio para apresentar a união das hortas e divulgar os lugares: é um roteiro de bicicleta que passa por várias delas. Ainda não sabemos se será regular, mas estamos abertos a ideias e propostas!

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Que conselho você daria para inserir as hortas no lazer das famílias?

As hortas comunitárias têm um papel educativo. Sempre que uma família ou uma escola quer visitá-las, pode entrar em contato e haverá alguém para receber as crianças. Agora, já aconteceu algumas vezes de os pais dizerem: “meu filho veio plantar”, e ficarem do lado de fora. A ideia não é essa. E é bom destruir essa expectativa de que horta é algo que uma criança consegue fazer sozinha. Precisa do acompanhamento de um adulto, dá trabalho. E a gente não consegue ensinar algo que não faz. Então, um adulto que nunca plantou, dificilmente ensinará uma criança. Ele precisa estar disponível também.  Provavelmente, não é no primeiro passeio que a criança vai aproveitar mais. De início, ela pode se encantar, ou até achar chato. É da familiaridade que nascerá algo de bom. Viu esse menino que acabou de entrar? Ele já esteve algumas vezes aqui e hoje me disse: “Alguém colheu o abacaxi que estava ali; os papiros cresceram; não tem mais morangos”. Ele já tem uma apropriação, percebe as mudanças, ele tem uma conexão com este lugar. É como ter um cachorro: imagina que você só vai até onde ele está, faz carinho e vai embora. Pode ser legal, mas ter um cachorro não é isso, né?.


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