Em busca da cidade-mãe

Pulando corda

28 maio Em busca da cidade-mãe

Ativista feminista e também mãe, a arquiteta e urbanista Tainá de Paula vem pensando como as cidades poderiam – e deveriam – ser para acolher as mulheres e suas crias

Membro da Comissão para a Equidade de Gênero no Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio (CAU/RJ), Tainá de Paula tem voltado seu trabalho a construir cidades mais democráticas. Ela também presta assistência técnica para o Movimento dos Trabalhadores sem Teto na cidade. “Me aproximei de vários movimentos sociais que lutam por uma cidade mais igualitária” conta ela, que coordenou projetos de habitação de interesse social na prefeitura de Nova Iguaçú, onde foi funcionária, e trabalhou com operações urbanas e requalificação de favelas. “Meu interesse sempre foi fazer cidade ouvindo as pessoas. E, à luz da maternidade, que chegou em 2014, senti também a necessidade de pensar o que seria uma cidade para todos, principalmente para mulheres e crianças”, diz.

_mg_8495O que seria uma cidade para mulheres e crianças?

Hoje, nada do que temos: paradas de ônibus, transporte, moradia… é decidido ou projetado por mulheres. As mulheres não regulam, nem legislam, nem projetam cidades. É preciso criar espaços de poder institucional, sem criminalizar ou hostilizar as mulheres que os ocupam, para que a visão de cidade possa se democratizar. As mulheres também gastam boa parte de sua dupla ou tripla jornada se deslocando: para levar suas crianças à creche, para alcançar o seu posto de trabalho ou equipamentos de saúde. Por que esses lugares não poderiam ficar mais perto? Em uma cidade mais compacta? Se cidade fosse mais acessível às mulheres, as crianças consequentemente teriam mais acesso também.


Como seria essa cidade mais compacta, ao alcance da mão?

mãe com criançaPor que uma escola pública, uma creche e uma biblioteca municipal não podem estar no mesmo espaço? Se tomarmos como exemplo uma arquitetura mais matriarcal, como a da África do Sul, por exemplo, veremos que esse é o princípio: juntar as coisas. Assim, mulheres e crianças não precisam transitar por inúmeros espaços. Em São Paulo, há dados sobre como as mulheres se deslocam muito mais pela cidade, e a pé, carregando filhos com elas. Temos de construir cidades que auxiliem essa dinâmica. Hoje, as cidades enclausuram as mulheres: ou elas estão em um espaço privado, ou não estão tranquilas. O maior exemplo disso é o “vagão rosa”. Ele restringe as mulheres e supõe que pessoas que oferecem risco continuam a circular livremente. Historicamente, a cidade foi negada às mulheres. Antigamente, elas só circulavam na companhia do marido. E essa negação tem uma consequência direta, automática para as crianças. Porque se uma mãe não pode circular no espaço público, e uma criança deve estar com ela, esse espaço lhe é negado também.

 

Crianças brincandoComo facilitar o uso da cidade por crianças e mulheres?

Bom, além de produzir cidades mais compactas e acolhedoras, para mães e crianças circularem sem se cansar, temos de mudar a mentalidade quanto à maternidade no espaço público. Volta e meia querem passar leis regulando a amamentação em público, por exemplo, propondo que as mulheres cubram o peito com paninhos. Tem esse grande tabu. Mas como vamos achar normal o que não vemos, o que não ocorre cotidianamente? Mães e crianças precisam ser vistas, estar no espaço público, ser identificados como cidadãos. Isso também dinamizaria as cidades. Podemos pensar, ainda, em como adequar suas necessidades, não só de mobilidade mas de lazer: como construir áreas que agreguem as diferentes fases da infância? Como incluir, em nossos modelos de praças, por exemplo, crianças de zero a 6 anos? Como conectar o espaço público com o espaço escolar? A creche é outro espaço que, ao mimetizar a casa, enclausura as crianças e as retira do espaço público. É preciso rediscutir a maternidade no espaço público e refletir sobre como é criar filhos em uma cidade que enclausura.

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Como seria sua cidade ideal, imaginária? O que haveria nela?

Um debate central no Brasil, nos próximos anos, será falar de um programa de renda básica, para eliminar a desnutrição infantil, a miséria, a nossa tremenda desigualdade. Na minha cidade imaginária, haveria também um pré-parto, um parto e um puerpério ativos para as mães. Elas seriam acolhidas, para poderem se constituir como mães de um modo mais livre. A saúde da mulher e da mãe precisam de uma rede. Por que, em vez de creches, não poderia haver locais de maternagem para as famílias, com as crianças vendo outros pais e mães? Em locais como a Feira de São Cristóvão, por exemplo, eu imagino pavilhões abertos, pavilhões do povo, da maternidade. Em um país onde a miséria reina, redes de apoio e convivência são fundamentais, transformadoras. Por que não um local onde as famílias, pais e mães, possam brincar com seus filhos, trocar-lhes as fraldas? O fato de termos de fazer isso no banheiro vira um entrave, porque então o homem não troca fraldas. Que tal um espaço misto para as famílias criarem novos modelos? O Brasil acabou discutindo muito pouco os novos modelos de configuração familiar, que são matriarcais. Como fazer para equiparar licença maternidade e paternidade? Porque a cidade ideal é aquela que permite que eu trabalhe sem abrir mão de minha maternidade, sem ter de terceirizá-la. E para isso é preciso ter também espaços nos trabalhos para levar as crianças.


O que precisamos para chegar a esse ponto?

Acho que falta informação para se discutir e chegar a um modelo novo, a uma perspectiva de gênero. É preciso também que os homens entendam essa mudança de modelo, que topem trabalhar contra seus lugares de privilégio, porque se só a mulher continuar tomando conta dos filhos, ela não se qualificará para ganhar mais, nem para ocupar cargos de poder, para poder pensar em políticas públicas que a atendam, em novos espaços.


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