Em busca de paz

Crianças brincando

05 ago Em busca de paz

Murilo Cavalcanti, Secretário de Segurança Urbana do Recife, acredita que mais armas não vão proteger ninguém. Pelo contrário. Ele acredita em promover boas cidades para todos.

Formado em administração de empresas, o atual Secretário de Segurança Urbana do Recife trabalhou, durante muitos anos, como empresário da noite. Foi um  drama familiar o que o levou a mudar de rumo. Em 2005, durante um assalto, sua irmã levou um tiro na medula e ficou paraplégica. A tragédia motivou Murilo a pesquisar alguma forma de prevenir situações como a que sua família viveu. Suas pesquisas o levaram à Colômbia. 

“Nos anos 90, a taxa de homicídios chegou a um pico de 380 por 100 mil habitantes ao ano, na cidade de Medellín, então a mais violenta do mundo. Os moradores tinham medo de sair na rua, havia bairros controlados por gangues, extorsões, sequestros e quadrilhas de todo tipo e especialidade”, conta. “De lá para cá, a incidência de homicídios caiu vertiginosamente, chegando a 21 em 2016 — a menor em 40 anos. Mais baixa que a do Rio de Janeiro”, diz. Animado com os resultados, Murilo viajou 25 vezes à Colômbia, ao longo de 12 anos, para conhecer de perto e entender o que provocou a mudança. “Aprendi que a violência urbana não é somente um problema de polícia. Na Colômbia, ela foi enfrentada com uma política integrada.”

FotosCarnavalCompazAST_FotosGuilhermeCarvalho_9A receita? A prefeitura de Medellín melhorou os espaços públicos nos bairros mais pobres, criou locais de convivência, colocou todas as crianças na escola, possibilitou acesso a justiça, transporte eficiente, biblioteca de primeiro mundo e bancou uma ostensiva campanha de respeito à cidadania e aos direitos humanos. 

Murilo tenta reproduzir o modelo à frente da Secretaria de Segurança Urbana do Recife, com os Centros Comunitários da Paz (Compaz), projeto que já tem duas unidades instaladas, a primeira inaugurada em 2016. Os Compaz, situados em áreas carentes, oferecem à população uma série de serviços, que vão de biblioteca a aulas de esportes, passando por aconselhamento jurídico. “O que queremos com eles é fortalecer a convivência e a cidadania”, conta ele. 

Sua família viveu uma história de violência. Em geral, quando algo assim acontece, as pessoas se armam, se encastelam, procuram soluções individuais. Você foi pesquisar os números de Medellín, procurar soluções coletivas. Qual é a principal diferença entre elas?

Eu fui estudar sobre os problemas da violência urbana e suas possíveis soluções. Minha irmã virou mais do que uma cadeirante: se especializou em políticas públicas de acessibilidade com várias publicações sobre o assunto. Quando comecei a estudar lugares que tinham obtido êxitos em políticas públicas de reversão da violência urbana, me indicaram Medellín como um bom caso. Ali aprendi uma grande lição: para se enfrentar a violência urbana é preciso muito mais do que polícia, é preciso reduzir a desigualdade, ofertar uma gama de serviços públicos de alta qualidade para quem mais precisa, inverter a lógica perversa de fazer coisa pobre para quem é pobre. E ter como principais armas a cultura e a educação. Que cidade queremos? Essa é a primeira pergunta que precisamos nos fazer. Uma cidade onde os filhos dos ricos brincam em um parque espetacular e os dos pobres não têm onde brincar? Esse é o início de uma cidade violenta: desigual, mal educada, onde joga-se lixo no chão, onde as autoridades dão exemplos contrários, como policiais parando em vagas de deficientes ou em cima da calçada. 

NatalCompaz_FotosGuilhermeCarvalho_1Por que as soluções para diminuir a violência passam necessariamente por retomar e qualificar o espaço público? 

As cidades são desiguais. Quem é pobre, vive nos lugares mais abandonados da cidade: sem iluminação, sem parques, sem praças, sem espaço de convivência cidadã. Lugares sujos e abandonados. Quando o gestor público enxerga os direitos desses cidadãos que vivem à margem da cidade, você gera cidadania e, consequentemente, convivência. O espaço público é lugar de encontro, de convivência, de afirmação. É o lugar mais democrático da cidade. Por isso mesmo, deveria ser o lugar mais bem tratado, principalmente nas áreas pobres e mais vulneráveis. 

Quais são os serviços que as duas unidades do Compaz oferecem? Que números vocês já conseguiram levantar? 

O Compaz tem sido uma verdadeira fábrica de cidadania. As estatísticas mostram que todos os índices de violência caíram no entorno do Compaz. Mas o mais significativo é a convivência e a cultura de paz entre seus usuários. O Compaz tem mostrado que quando se oferta um leque de serviços de qualidade, por meio de uma pedagogia da transformação, essa população atendida responde com mais cidadania, com mais convivência, com mais afetividade e, consequentemente, com menos comportamento violento. 

Mesmo que se apresentem evidências e argumentos de que combater a violência com força policial, ou armando a população, não é solução, a escolha tomada por boa parte dos que votaram nas últimas eleições foi essa. Como mudar esta mentalidade? 

Por meio de debate, mostrando a verdade, fazendo o enfrentamento da mentira e das velhas retóricas fascistas. É preciso ter um projeto de vida pactuado pela população, para enfrentar as forças conservadoras que insistem no discurso e na prática do “prendo e arrebento”. A cultura é uma ferramenta importante para buscar essas conquistas.

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Você diz que as calçadas são um item civilizatório. Sendo aparentemente um item fácil de manter e resolver, por que as calçadas de nossas cidades são tão ruins?

No Brasil, nos últimos 60 anos, houve sempre, por parte dos gestores públicos, o compromisso em facilitar a vida dos automóveis: um grande equívoco. A cidadania nasce nas calçadas. Num lugar onde não se respeita as calçadas, não se respeita nada. O primeiro passo para a cidadania é que tenhamos calçadas dignas para nos locomover. É necessário criar uma cultura cidadã, que cobre dos gestores públicos priorizar os humanos e não os veículos. 

 

Que cidades oferecemos hoje às crianças? E o que podemos e devemos oferecer?

Cidade nenhuma. Estamos muito distantes de uma cidade civilizada, na qual as crianças, os idosos, as grávidas sejam prioridade. No dia em que desenharmos uma cidade para essas populações, a cidade será boa para todos. Todos os gestores públicos deveriam ter na primeira infância a prioridade de suas prioridades. Medellín fez isso por meio do Programa Bom Começo. Está agora colhendo seus frutos. Uma nova geração de jovens saudáveis e longe do crime. 

Como funciona o programa Bom Começo, em Medellín? Poderia ser aplicado por aqui?

RecifeMarinersNoCompaz_FotosGuilhermeCarvalho-46O programa nasceu dentro da prefeitura de Medellìn e hoje virou uma política pública nacional. É um programa voltado para primeira infância (de 0 a 6 anos), com prédios construídos com patamar de qualidade muito elevada, técnicos altamente capacitados, e com uma metodologia pedagógica toda em cima de evidências científicas. O programa tem como prioridade as crianças de pais pobres. Em Medellìn, atende mais de 70% delas com idades entre 0 e 6 anos. 


Pensando nas crianças, o que nossas cidades deveriam oferecer para promover convivência e paz?

Todas as evidências científicas apontam que crianças que convivem num lar com pais agressivos, dependentes químicos, em estado de pobreza absoluta, terão muita dificuldade de aprendizagem e possivelmente, na fase juvenil ou adulta, irão reproduzir esse tipo de violência sofrida na primeira infância. Portanto, é fundamental que qualquer política voltada para essa população tenha 5 requisitos básicos: prédios com estrutura adequada; metodologia pedagógica baseada em evidências científicas; altíssima qualidade no aprendizado; alimentação saudável e cultura de paz e não de violência, que envolva pais e mães, principalmente, para que essas crianças possam levar para dentro dos lares e aos espaços públicos uma cultura de convivência e não de violência.