“Não existe cidade sustentável sem a participação das pessoas”

Crianças descendo

03 maio “Não existe cidade sustentável sem a participação das pessoas”

Circe Gama Monteiro, Coordenadora de pesquisa e urbanismo do INCITI, fala sobre desenvolvimento e políticas urbanas nas cidades brasileiras.

Com o objetivo de destacar iniciativas locais de diferentes áreas que já atuam em projetos que resgatam o contato direto das crianças com o ambiente natural, o programa Criança e Natureza, do Instituto Alana, em parceria com a INCITI – Pesquisa e Inovação para as Cidades, rede de pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), realizam o “Encontro Regional Criança e Natureza” no dia 11 de maio, das 8h às 16h, em Recife.

Para já entrar no debate, conversamos com a arquiteta e urbanista Circe Gama Monteiro sobre infâncias e naturezas urbanas, tema que permeia toda a programação do encontro.

Estudos demonstram que o desenvolvimento urbano  sustentável influencia diretamente a qualidade de vida das cidades e de seus habitantes. Reconhecemos que nem todas as cidades brasileiras se aproximam dessa realidade. Portanto, quais seriam os caminhos possíveis para essa transformação, levando em conta as questões orçamentárias, políticas e sociais dos centros urbanos brasileiros? 

A busca por desenvolvimento sustentável é, antes de mais nada, uma atitude frente ao mundo que deve virar comportamento, e mais do que isto um hábito, se quisermos mudar o modo como usamos as cidades e, consequentemente, transformá-las em um lugar melhor. Não existe cidade sustentável sem a participação das pessoas, pois são elas que decidem se vão andar a pé, de bicicleta ou de carro, se vão consumir produtos produzidos na região, se vão comprar roupas feitas no país, se vão usar detergentes biodegradáveis ou se vão passear nos parques.

Do mesmo modo, os nossos tomadores de decisão deveriam ser guiados por perspectivas de longo prazo. Sustentabilidade é pensar nos efeitos das ações presentes sobre o futuro. Na mesma direção: os administradores estariam construindo cidades que  facilitam esses hábitos sustentáveis? Promovem mobilidade ativa? Ofertam alimentos saudáveis? Cuidam das águas e da natureza?

O desenvolvimento sustentável não pode ser um conceito abstrato, mas algo experienciado no dia a dia.

Bicicleta na cidadeComo a escolha por esse caminho sustentável afeta o cotidiano de comunidades do presente e do futuro, em especial as crianças, e a forma como elas vêm e se relacionam com suas cidades?

O conceito de desenvolvimento sustentável tem que ser experimentado nos primeiros anos de vida. Assim será possível gerar pensamentos, emoções e ações que irão incentivar o comportamento de uma nova geração face à natureza, ao consumo e, principalmente, às outras pessoas que nos rodeiam.  Crianças emparedadas são desligadas desse contato vital que restringe sua cognição e sistema emocional.

Como podemos construir e fortalecer uma política urbana de afeto com as grandes cidades, que priorize seus moradores e seja integrada com a natureza, , ainda que parcialmente, considerando a realidade atual em relação ao progresso, à economia e ao desenvolvimento?

Creio que,  ainda hoje, temos a noção de desenvolvimento e progresso em vez de prosperidade e qualidade de vida. A primeira está ligada à noção de conquista da natureza, aumento de produção e consumo, que é frontalmente oposta à ideia de sustentabilidade. Essa perspectiva parte de uma concepção relacional, ou sistêmica, de que todos habitamos o mesmo planeta, e o ato de cada um afeta todo o sistema, seja ele natural ou social.

Devemos começar pelo respeito à natureza e ao planeta que nos abriga. Levar as crianças para sentir os cheiros da terra, o vento, sentir o conforto da sombra de uma árvore, entender a vida dos animais, ensinar respeito, demandar qualidade de vida e ser responsáveis pelo que consomem e pelos resíduos que esse consumo produz.

As crianças urbanas atualmente estão muito conectadas com informações e experiências virtuais, mas distantes de saber como se planta e produz aquilo se come, como se cria um animal, quem são as pessoas que trabalham para nos dar alimentos e o que acontece com o lixo que se produz. Esse distanciamento se reflete também nas posturas frente às resoluções de problemas e conflitos, acreditando que outros devem resolvê-los e retirando-se do protagonismo das ações de transformação.

Penso que a transformação induzida pela experiência seja mais duradoura e criativa do que a transmitida por palavras e ideias abstratas. Por isso, temos que reconectar as crianças com a natureza, com seus sentidos e favorecer descobertas e sonhos que são imprescindíveis para o desenvolvimento de um ser humano saudável.

QuadraQual é a sua visão a respeito do futuro das cidades brasileiras?

Cada cidade tem sua singularidade. Características positivas e negativas que atraem as pessoas a morarem nesses locais, algumas por opção, outras por falta desta. Nossas cidades têm oferecido mais dificuldades do que oportunidades no dia a dia de seus moradores. Algumas até intransponíveis, de forma a agudizar os efeitos de nossa histórica desigualdade social.

Dessa forma, as cidades poderiam ser mais amigas e com mais oportunidades, proporcionando condições de superação de dificuldades. Para que isso aconteça, como o futuro das cidades brasileiras depende principalmente de seus governantes, devemos começar a sensibilizar as crianças, pois em 20 anos elas serão a nova geração e estarão liderando nossos caminhos, espero que para melhor.

Qual a importância de um encontro regional sobre criança e natureza para a cidade do Recife e que legado pretende-se construir com essa realização ?

Recife vai completar 500 anos em 2037 e vem propondo uma visão de futuro da cidade como uma Cidade Parque. Este é um conceito construído com base no genoma da cidade e de sua sociedade. A cidade Parque objetiva reinventar o Recife como uma cidade Inclusiva, Saudável, Segura e Próspera.

Um dos pilares desta visão é reconectar a cidade com a natureza e honrar principalmente a relação com as suas águas e vegetação tropical. A cidade Parque é uma cidade de encontros e oportunidades, onde ao caminhar se reconhecem identidades e se respeitam diversidades. Precisamos transformar esta cidade para que nossas crianças vivam e usufruam a riqueza ambiental que ainda possuímos, e se reinventem como sociedade mais justa, tolerante e criativa.

Este evento sobre criança e natureza vem ao encontro desse objetivo e pretende abrir o diálogo entre pessoas que efetivamente podem propor políticas e modificar lugares. É uma oportunidade de responder às crianças que querem saber o que vamos fazer hoje, para que elas tenham um futuro mais feliz e com melhor qualidade de vida.

Saiba Mais

ENCONTRO CRIANÇA E NATUREZA EM RECIFE
NO OLHO DA RUA