Natureza: um ótimo remédio

Nosso Quintal Fev 2017-38

16 ago Natureza: um ótimo remédio

A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda. Aqui, a pediatra Evelyn Eisenstein explica por que algumas doses de natureza ajudam a prevenir – e curar – várias doenças

Pais e mães de crianças e adolescentes têm recebido receitas diferentes ao final da consulta com a pediatra Evelyn Eisenstein, no Rio de Janeiro. O papel, que tem data, CRM e carimbo, tudo dentro dos conformes, traz indicações como “Faça uma caminhada ao ar livre, todos os dias”. “Desconecte o celular na hora das refeições”.

Maluquice? Nada disso! São recomendações que constam do manual que Evelyn, que faz parte da Sociedade Brasileira de Pediatria, ajudou a elaborar, em parceria com o Grupo de Trabalho em Saúde e Natureza, do Instituto Alana. O manual visa orientar famílias, pediatras e educadores sobre a importância do convívio de crianças e adolescentes em meio à natureza para obter saúde e bem-estar. “Hoje, estamos tendo que falar sobre o óbvio: tecnologia precisa, também, de ter limites, desconectar!” 

Menino em árvoreA ligação entre uma infância cada vez mais fechada entre quatro paredes e o sedentarismo, o sobrepeso e a obesidade já foi bastante estudada. Agora, começam a surgir também ligações com prejuízos à saúde como hiperatividade, baixa motricidade, déficit de atenção, e até miopia… Pode nos contar mais sobre isso? 

Não é uma relação direta, de causa e efeito, como ocorre com uma bactéria e uma infecção. Uma correlação como a do cigarro e o câncer de pulmão, que demorou 50 anos para ser provada, mas já está estabelecida. Estamos falando sobre influências de um contexto social que favorece o surgimento de certos danos à saúde: cidades superpopulosas, com muito estresse à volta das crianças, poluição do ar e sonora, e poucas opções de lazer ao ar livre. Esses fatores todos levam ao confinamento. As pessoas, quando saem de casa, vão ao shopping ou a outros lugares fechados, onde o emparedamento segue. Mas as crianças precisam de sol na pele, para produzir vitamina D, de espaço para correr e brincar livremente, para desenvolver sua motricidade. Há estudos associando a falta de brincar com o aumento da prevalência de estresse tóxico e de transtornos comportamentais, como o de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e a depressão. O contato com a natureza também propicia um relaxamento e a possibilidade de desenvolver curiosidade, criatividadeautonomia. Locais amplos exercitam os olhos a enxergar longe e perto, algo que não ocorre quando se está muitas horas somente em frente a telas e espaços fechados.

Você costuma prescrever aos seus pacientes contato com a natureza, mais vida ao ar livre. Quais são as reações quando faz isso?

Sim, faço isso o tempo todo, tenho falado, recomendado: “Dê a mão ao seu filho e vá caminhar. Aqui no Rio de Janeiro, tem a Lagoa, o Aterro, o Jardim Botânico…”. Outra coisa que recomendo é se desconectar, tanto na hora das refeições como duas ou três horas antes de ir dormir. É bom para a família. Outro dia, uma mãe me disse que na casa dela não havia mais “hora da refeição”, que cada um esquentava seu prato e ficava em suas redes sociais nos smartphones. Isso significa que estamos perdendo convivência familiar, que não estamos nos dando a oportunidade de estar juntos para conversar com os filhos, tentar compreender o que pensam ou como se sentem. Quando digo isso, muitos se surpreendem. Acho que prefeririam que eu somente receitasse um remédio e não algo tão simples, como uma caminhada e uma boa conversa. 

TrilhaIndo além da responsabilidade dos pais, não haveria outros fatores que condicionam esse estilo de vida, como a escassez de oferta de praças e parques nas cidades?

Sim, concordo plenamente: cadê as políticas públicas de prevenção? Existe uma falta de visão de futuro para determinantes sociais da saúde, não só a proteção da pessoa, a segurança, mas também em relação ao lazer, à saúde mental, a como diminuir o estresse, como incentivar as pessoas a praticar mais exercícios. Aí muitos vão para dentro de uma academia de ginástica, confinados, com música estridente, em vez de fazer um passeio ao ar livre. Quanto mais a sociedade estiver informada e pressionar os governos, mais chances haverá de acontecer alguma mudança.

Antigamente, as pessoas diziam “eu sou nervosa”. Hoje, muitos adolescentes se apresentam dizendo que têm “ansiedade”, “depressão”, “síndrome do pânico”. O que vem acontecendo?

Quando alguém me diz algo assim, faço uma única pergunta: quantas horas esse adolescente dorme por dia? Crianças e adolescentes precisam entre nove e dez horas de sono diário. No mínimo, oito horas. Isso é determinante em seu comportamento, em seu bem-estar durante a fase de crescimento e desenvolvimento corporal, cerebral, emocional. A adolescência é um período de enorme energia, de criação, questionamento, de oportunidades. Esses adolescentes poderiam estar fazendo um trabalho comunitário, exercendo sua liderança ou protagonismo juvenil na música, na arte, nos esportes ou acompanhando crianças mais novas, e isso lhes daria uma outra dimensão, um outro sentido de vida. Estamos enxergando as crianças e adolescentes somente como um produto de consumo. E isso é muito grave. Por exemplo, os jardins japoneses foram criados para diminuir o estresse, para ensinar a plantar, a colher, a admirar a natureza. Assim deveriam ser as praças públicas. O que fazer se as autoridades não geram condições para tanto?  Precisamos mudar nossa visão do contexto, da natureza a ser preservada à nossa volta, para nosso próprio benefício. Conheço um pai de um paciente que montou um forno de pizza em casa e, todo domingo, recebe os amigos adolescentes do filho para preparar e comer pizza. Virou um programa. É preciso fazer coisas juntos, se relacionar melhor!

SAIBA MAIS:

BENEFÍCIOS DA NATUREZA NO DESENVOLVIMENTO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

DE QUEM ESTAMOS NOS PROTEGENDO, E PROTEGENDO AS CRIANÇAS?