Pequenos no poder

Pequenos no poder, por Carolina Balparda

29 jun Pequenos no poder

A experiência do município de Rosário, na Argentina, que convidou as crianças para participarem ativamente do planejamento da cidade  

29/06/2018

 O que acontece quando uma cidade convida crianças para olharem o local onde vivem, opinarem sobre ele e ajudarem a propor soluções? O que acontece quando essas opiniões são levadas a sério e viram políticas públicas?

Essa experiência acontece no município de Rosário, na Argentina, desde 1996. Nossa entrevistada, a socióloga Carolina Balparda, trabalha na prefeitura desde 1999. Seu cargo tem um nome que soaria estranho em muitas cidades: Direção Geral de Pedagogia Urbana. Como assim: pedagogia urbana? Uma cidade pode ensinar?

Rosário mostrou que não só uma cidade pode ensinar, como, principalmente, aprender. Em 22 anos, o município criou novos espaços de lazer e cultura, descentralizou seus equipamentos públicos e incentivou a participação das crianças na formulação das políticas. O resultado? Projetos como o Tríptico da Infância – um circuito que propõe a interação entre natureza e cultura, com espaços destinados à convivência e à brincadeira em locais anteriormente degradados. A Granja da Infância, que faz parte do tríptico, por exemplo, era, em 1991, um antigo depósito de automóveis. O local teve o solo recuperado e hoje abriga, além de um bosque, uma horta, um teatro e um forno de pão, uma série de circuitos educativos e atividades com as quais os visitantes podem se engajar, como plantar, regar e alimentar animais. “É um local onde se criam vínculos, se alimentam os encontros, se estimula a participação. Acredito que a cidade é uma grande estratégia para voltarmos a produzir sentido, criativamente”, diz Carolina, que, a seguir, conta um pouco mais sobre a aventura de Rosário.



Vocês incluíram as crianças no planejamento da cidade. Por que?

O que queríamos era construir com elas uma espacialidade diferente, que pudesse ir al35515245_1868187756573091_5865052115004555264_oém, quebrando as dicotomias sempre tão marcadas entre corpo e mente, arte e ciência, aprendizagem e brincadeira, conteúdo e forma. As crianças se mostraram uma enorme fonte de saber e trouxeram um novo olhar para a cidade. Aprendemos com elas a pensar e desenhar espaços para a convivência, o brincar, o desfrutar. A construir uma nova espacialidade pública, que atendesse a todos. Porque brincar não é uma atividade, é uma forma de habitar o mundo. As crianças apreendem o mundo dessa forma. Brincar é um jeito de viver e de conviver. Foi com elas que percebemos que não fazia sentido, muitas vezes, desenhar espaços com um percurso guiado ou um itinerário fixo. E vimos o quanto a cena da cidade é valiosa para educar – não que a escola não o seja –, mas é incrível o quanto as crianças aprendem, e não apenas se educam, nela. Nesse sentido, o espaço público é único, não só porque para muitas pessoas os locais públicos são os únicos a que elas têm acesso, mas porque são espaços que oferecem a possibilidade de estar com o diferente.

Em muitas cidades, as escolas viraram um amontoado de grades e cimento. Como abrir a escola, como torná-la mais verde e mais permeável à cidade?

A grande questão, para nós, era trabalhar com todos os espaços públicos de que dispúnhamos: parques, praças, escolas … e pensar: que espaços desejamos construir? O que as crianças pensam sobre esses espaços? Somos nós, os adultos, que dividimos as coisas, que opomos natureza e cultura, que criamos a noção de que estar na natureza é sinônimo de ócio e entre quatro paredes, sinal de aprendizado. Para as crianças isso não funciona assim. Então, por que os parques não podem ser escolas e as escolas ser parques? É preciso lançar um novo olhar para o que é educativo. E quem mais têm a aprender são os adultos.

Como exatamente as crianças são ouvidas?

Existem conselhos de crianças formados por bairros, nos quais vários temas são discutidos. E uma vez por ano, escolhe-se, entre todos, um tema comum para a cidade. As ideias das crianças são apresentadas diretamente ao prefeito, que se aconselha com elas e também se compromete a articular as diferentes secretarias para solucionar as questões colocadas. A ideia é traçar uma política pública e leva-la adiante. Quando isso é realizado, há uma devolutiva para as crianças, que podem opinar sobre os planos e sua execução.

Você pode dar um exemplo?

Houve um ano em que as crianças levantaram uma preocupação com a segurança. Elas notaram que no caminho para a escola as ruas estavam mais vazias, e isso gerava medo. A ideia que tiveram, então, foi instalar bancos nas calçadas e consolidar uma agenda de atividades ao ar livre, para que o32498207_1648440745269354_3965703583986352128_ns vizinhos e vizinhas voltassem a ficar do lado de fora, tornando as ruas mais habitadas, como eram antigamente. Desse modo, os trajetos para a escola ficariam mais seguros. A proposta das crianças não foi no sentido de, por exemplo, aumentar o policiamento. Elas tendem a buscar soluções coletivas em vez de instituir mecanismos de controle. A prefeitura, nesse caso, teve de articular as secretarias de obras e de cultura, para pensar na melhor maneira de implementar a solução. Outro exemplo: no ano passado, as crianças notaram que as borboletas estavam sumindo da cidade. Então, foi articulado um projeto de plantio de flores nativas que atrairiam novamente as borboletas. Houve alguns dias de mobilização, nos quais adultos e crianças foram convidados a plantar, por toda a cidade.

Como é feita a escuta das crianças?

É necessário ouvi-las de verdade, e levá-las a sério. Além de aderir ao projeto, precisa haver uma decisão política de levar a cabo o que foi proposto, de implementar políticas públicas. Nós falamos que é necessário ter “orelhas verdes” para ouvir as crianças, ou seja, que essa escuta precisa ser feita por adultos que dialogam, que brincam, porque não se trata de transferir as nossas preocupações para elas. E sim de ouvi-los de verdade.

Olhando o mapa de Rosário em 2004 e 2014, o que se nota é que vários equipamentos públicos foram descentralizados. O que se ganhou com essa estratégia?

A grande questão é colocar à disposição das pessoas, das famílias, equipamentos e opções de qualidade que fiquem próximos. Não adianta querer que as crianças brinquem ao ar livre se o parque mais perto de suas casas está a duas conduções de distância. A ideia é que todos possam viver melhor na cidade. E que a cidade, com seu conjunto de políticas públicas, facilite a fruição dos espaços. Que isso saia da esfera individual e vire uma ação coletiva. Por isso é tão importante que as crianças participem da construção das políticas, porque elas são as grandes comunicadoras. O trabalho é obter, entre a autonomia e o controle, um bom planejamento do todo, para que todos tenham direito à cidade. É preciso garantir os direitos das crianças e o acesso aos locais para que esses direitos possam ser exercidos.

Se você tivesse que enumerar uma única coisa que fosse essencial para garantir esses direitos, qual seria?35529180_1868188733239660_4719089329295589376_o

Penso que a mobilidade é fundamental. O acesso ao transporte público, boas calçadas para chegar aos lugares, a regulação do automóvel dentro da cidade, a possibilidade de se utilizar a bicicleta. Fazer com que existam percursos tranquilos para que as crianças possam estar na cidade é vital. Isso torna a cidade mais vivível, mais habitável. As ruas são estratégicas nesse sentido. Claro que trabalhamos com cultura, saúde, educação, áreas verdes. Temos um número muito alto de metros quadrados de área verde por habitante, por exemplo, mais do que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Mas se esses espaços não forem acessíveis a todos, de nada servem. Este ano, experimentamos ocupar as praças e parques à noite. Articulamos pequenas apresentações de música, circo, teatro e fizemos um chamado. Foi uma festa! Os parques todos iluminados, lotados de famílias com suas toalhas de piquenique sobre a grama, foi lindo de ver. E o que fizemos foi apenas dar um pequeno estímulo, ao qual as pessoas responderam.

Como vocês lidam com a manutenção desses espaços que foram criados? E com a segurança dentro deles?

No Tríptico da Infância deixamos sempre muito material à disposição do público. São coisas de vários tipos: há desde blocos de madeira até ferramentas. E raramente algo some. Muita coisa se deteriora pelo uso e precisa ser reposta, mas as pessoas sabem valorizar o que está ali colocado para elas. Queremos estimular a autonomia, e confiamos nas crianças e em seus cuidadores. Os pequenos participam, por exemplo, de uma oficina que “conserta corações”, na qual utilizam até uma solda. Achamos que o segredo é orientar as pessoas. Por isso, não há cartazes de perigo nem de proibição espalhados pelo Tríptico, e sim instruções de uso, de como mexer. Trata-se de organizar o espaço e os materiais e ter confiança nessa construção coletiva.

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“DEVO O QUE SOU AO MEU IRMÃO E AO MEU QUINTAL”

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