Um sonho feliz de cidade

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08 set Um sonho feliz de cidade

Representante do Criança e Natureza na Europa conta por que Freiburg, na Alemanha, é uma referência mundial em sustentabilidade e tem atraído muitas famílias com crianças do mundo inteiro

08/09/2017

Por Mariana Sgarioni


Era uma vez uma cidade que ficava no meio de uma floresta, com um rio de águas transparentes passando no meio. As crianças que moravam lá andavam soltas, sem medo. Porque não tinha carro nem ônibus andando rápido, e todos os adultos sabiam que brincar livremente era a coisa mais importante de suas vidas.

frieburg_criançasEsta cidade de contos de fadas existe, funciona bem assim, e se chama Freiburg. Fica na região sudoeste da Alemanha e tem cerca de 200 mil habitantes. Além de uma localização geográfica favorável a uma vida próxima da natureza – a cidade fica próxima à Floresta Negra – sua política urbana é toda voltada para a sustentabilidade. Tanto que é considerada referência mundial no assunto. Há geração de energia solar por toda a parte, plano de mobilidade voltada para bicicletas, praças e parques especialmente pensados para crianças, ruas fechadas só para brincadeiras, e todo um planejamento urbano amigável aos pequenos, como velocidade de carros reduzida, por exemplo.

“Pequenas soluções, vontade política e engajamento de todos os moradores fizeram Freiburg ser hoje um modelo de qualidade de vida e de cidade amiga das crianças”, diz Tatiana Cyro Costa, consultora independente e representante do Criança e Natureza na Europa. Mãe de Eric e Nino, de 3 e 6 anos, e moradora de Freiburg, Tatiana vai fazer parte da primeira Missão Técnica Criança e Natureza, que começa neste sábado, dia 09.

Representantes de diversas áreas do Brasil farão parte dessa expedição inédita, promovida pelo Alana, para conhecer e viver um pouco a experiência da cidade alemã. “Há muitos projetos que deram certo aqui e que são perfeitamente possíveis de serem aplicados em cidades brasileiras”, diz Tatiana.

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Por que morar em Freiburg com crianças é tão bom?

Freiburg é uma cidade tranquila, segura, de pequenas distâncias, situada no meio da Floresta Negra, com natureza acessível e abundante. Nosso dia a dia é permeado de pequenos momentos de natureza: vamos de bicicleta para a escola, por exemplo, e na volta podemos dar um mergulho no rio, que é limpo. Ou podemos voltar pela floresta. Freiburg tem este fator geográfico favorável, mas também há anos aposta em uma política de sustentabilidade. Tanto que antes de ser uma cidade amiga das crianças, ela começou sendo conhecida como uma cidade verde, uma das mais verdes do mundo. Todas as áreas de política urbana são regidas pela economia verde: geração de energia, transporte, mobilidade, resíduos etc. Então você tem, por exemplo, um planejamento urbano em que não precisa usar o carro para nada. Uma das consequências deste processo é que a cidade se transformou num lugar incrível para viver com crianças, atraindo cada vez mais famílias.

Como foi a adaptação da cidade para se tornar amigável às crianças?

IMG_4211As políticas foram mudando e as crianças passaram a ser uma das prioridades. Um exemplo é a velocidade máxima permitida aos carros: 30 km por hora. Houve também, nos anos 1990, uma grande reforma nos parques da cidade. Eles foram transformados, “renaturalizados”.  Tiraram brinquedos de plástico ou aqueles que determinam como a criança deve brincar, como escorregadores, e colocaram objetos mais rústicos, como tocos de madeiras, para que a criança crie sua própria brincadeira. Foi um grande movimento, com engajamento social e a participação efetiva dos moradores. Foram construídos jardins de infância nas florestas e áreas livres – muitos, inclusive, começaram como iniciativas de grupos de pais. Foi fundamental que as pessoas se apropriassem da cidade, fizessem sua parte. São pequenas soluções que fizeram toda a diferença.

Quais são estas pequenas soluções?

IMG_20170706_092154048Em primeiro lugar vem o engajamento da população, sem dúvida. Depois vem a vontade política. Por exemplo, mudar o limite de velocidade para carros, diminuir o número de vagas de estacionamento nas ruas. Aqui diversas ruas são fechadas para as crianças brincarem, há inclusive uma placa de trânsito com esta sinalização. Isso é muito simples e barato de fazer – já não existem ruas que são fechadas para feiras? Por que não fechar para as crianças brincarem? É custo zero e estimula as crianças a se apropriarem do espaço público. Os trajetos que levam às escolas também são estudados, diminuindo o fluxo de veículos e incentivando que as crianças possam ir a pé ou de bicicleta. O resultado é que você vê crianças de cinco ou seis anos indo de patinete sozinhas para a escola, com autonomia e independência.

A Missão Técnica pretende trazer essas ideias ao Brasil?

Sim, é possível adaptar muita coisa, sempre levando em conta a nossa realidade e a nossa cultura, claro. A primeira ideia da Missão foi juntar um grupo de pessoas e instituições brasileiras para trabalhar em cidades mais amigas da natureza e das crianças, começar um movimento. A equipe que vem para Freiburg vai visitar uma referência mundial em qualidade de vida para crianças e para todos. Queremos que os integrantes vejam de perto o que é viver aqui, e voltem inspirados para trabalhar em redes, promovendo transformações nas suas cidades. Vamos entender quais são os elementos que fazem Freiburg ser essa cidade tão bacana. Vamos visitar um bairro, por exemplo, que gera toda a energia que consome, onde existem várias ruas que não entram carros. É um bairro modelo para crianças. Vamos passear bastante de bicicleta, fazer um tour sobre sistema de mobilidade. Enfim, será uma ferramenta bastante útil para mobilizar e inspirar pessoas.

Conte um pouco como é a vida dos seus filhos pequenos aí. Quais as mudanças que você notou neles depois que chegou?

IMG_3979Nós morávamos no Rio de Janeiro, um grande centro urbano, em que eles viviam mais presos e controlados. Aqui estamos nos acostumando a ter filhos mais soltos. O raio de circulação de uma criança aqui, ou seja, a distância que uma criança percorre sozinha é incrível. Porque os perigos são muito menores. Percebo também que as roupas deles estragam mais rápido do que no Brasil. Rasgam. Isso porque eles estão brincando na floresta, ajoelhados no chão etc. Portanto, estão brincando mais, o que é ótimo. É tanto movimento que a roupa não aguenta. Eles se desenvolveram muito, o corpo deles mudou: como a escola é dentro da floresta, eles não ficam sentados dentro de uma sala. O desenvolvimento motor e físico é impressionante: meu filho de três anos já anda bem de bicicleta, sem rodinhas. Anteontem fomos até uma piscina pública com eles e o pequeno pedalou 4 km sem cansar! Pela primeira vez, percebo que eles entendem o espaço público – as ruas, a cidade – como sendo deles e parte deles. Sem medo.