Uma cidade que acolhe a todos, inclusive as crianças

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13 dez Uma cidade que acolhe a todos, inclusive as crianças

Psicopedagoga fundadora do BrincaCidade, no Rio de Janeiro, explica por que se apropriar do lugar em que vivemos ajuda a tornar nossas crianças futuros cidadãos conscientes

Por Mariana Sgarioni

13/12/2017

 

Uma enorme construção de concreto, cravada no asfalto da Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro, pode parecer um local sem nenhuma vida – à primeira vista. Mas foi ali, nos meandros do cimento da Cidade das Artes, que a psicopedagoga Juliana Brum achou um tesouro escondido: um gramadão, árvores frondosas e até uma horta. “A Cidade das Artes é uma construção assustadora, nada convidativa. Pois resolvemos conhecer, explorar, e abraçar este espaço. Esta área pública, até então ociosa, foi o lugar que escolhemos para pensar a infância sob outra perspectiva”, lembra.

Em 2015, Juliana e a amiga Caroline Hornos, ambas mães recentes à procura de um espaço ao ar livre na região para levar seus bebês, fundaram o movimento BrincaCidade. Estenderam uma canga no gramado, exibiram o filme Território do Brincar, e, pelas redes sociais, mobilizaram cerca de 40 pessoas. Hoje, esses encontros, regados a muito bate-papo, já contabilizam mais de 300 participantes. “O BrincaCidade é um evento para famílias passarem o domingo com as crianças. Para que possamos olhar a infância se manifestando”, define.

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18403912_917192305089541_6179773574569331339_oPor que vocês começaram o movimento num lugar tão distante do centro do Rio de Janeiro? E no meio do concreto?

Quando nossos filhos nasceram, eu e a Carolina, moradoras da zona oeste do Rio, tínhamos uma inquietação: estar na cidade de maneira mais significativa para todos e com as crianças, sempre junto delas. Saímos então em busca de espaços públicos aqui no bairro para estar com nossas crianças. Nós fazíamos parte de grupos de mães que promoviam encontros, mas eram sempre longe e nós tínhamos que nos deslocar muito. Pensei: eu moro aqui! Portanto, aqui que vou ficar, não quero ter que atravessar a cidade. Passamos a explorar nosso bairro, com o desejo de ocupar a cidade, na companhia das crianças, em família. Percebemos, cada vez mais, o quanto nossos bairros são marcados pelos condomínios, shoppings centers. A diversão sempre em espaços privados e voltados ao consumo. Isso não nos atendia, não era o que acreditávamos. Nossa idéia era mais do que apenas levar as crianças para passear: gostaríamos de falar sobre a infância, pensar sobre essa etapa da vida de maneira mais respeitosa, inclusiva, menos hostil, pensar a educação além da escolarização. Então passamos a explorar cada vez mais os espaços: praias, praças, até que chegamos à Cidade das Artes. Uma construção enorme, de concreto, pouco convidativa. Entramos e descobrimos o quanto aquele espaço – que é público – poderia ser melhor aproveitado.

De que maneira?

Poucas pessoas sabem, mas dentro da Cidade das Artes tem até horta. Um gramadão delicioso, árvores. Ninguém vê. Então achamos que para pensar a infância com mais respeito, nada melhor que ocupar a Cidade das Artes sob outra perspectiva. Assim criamos o Projeto Encontros na Praça, mensal, no gramadão na Cidade das Artes. Um lugar delicioso para estender a canga e soltar as crianças. Um lugar de encontro. Para famílias passarem o domingo com seus filhos, para a gente olhar a infância se manifestando. Não é para os pais brincarem junto com elas obrigatoriamente. Não somos um grupo de recreação. A proposta é ir para o gramado, para a rua, estar junto e, a partir disso, rediscutir nosso olhar sobre a infância.

brincacidade1Como os encontros funcionam?

Uma vez por mês, das 11h às 15h. Cada encontro tem um tema. No primeiro, em 2015, exibimos o filme Território do Brincar e propusemos um debate. O último foi “Raizes, Cultura Popular e da Infância”. Chamamos um grupo de coco e outro de maracatu. E tivemos uma roda de conversa, como sempre. No início, eram cerca de 40 pessoas. Agora já passamos de 300! Temos um site e páginas no Instagram e no Facebook. Nossa divulgação é pelas redes sociais. Não temos nenhuma movimentação financeira. Tudo é feito com parcerias: em geral, mães empreendedoras, que topam oferecer parte de sua produção em troca de divulgação. Então, por exemplo, sempre temos comidinhas e bebidinhas nos eventos. Tudo gratuito. O importante é que seja acessível a todos, que seja democrático. E, principalmente, que as crianças se sintam incluídas nesse processo e não excluídas, como em geral acontece na nossa sociedade.

Por que você acha que isso acontece?

É preciso trazer as crianças para a vida das pessoas. Veja bem: não é para elas serem o centro da vida, nem que estejam em evidência. É para que os adultos entendam as crianças como parte da vida. Simplesmente. Elas precisam estar presentes nos nossos eventos, no nosso cotidiano. O que a gente percebe é que as pessoas não toleram muito as crianças. Não sabem conviver com elas porque estão pouco preparados para lidar com o que elas trazem. É desconfortável: elas correm, pulam, comem, sujam tudo, falam alto. Portanto, se a gente tem um compromisso importante, imediatamente exclui a criança. Ainda que o assunto deste compromisso seja ela. Desejamos que a cidade seja acolhedora para todo mundo, inclusive para crianças. Que não seja hostil para quem está sendo educado. Afinal, ninguém nasce adulto, né?

21122335_991535497655221_493452657249660206_oQuais serão seus próximos passos?

Desejamos buscar mais recursos para continuar levando cada vez mais pessoas para espaços públicos da zona oeste. Nosso projeto é convidar cada vez mais famílias. Que as pessoas estendam a canga para brincar no domingo. Entendemos que a educação vai além da escola. Ela está na cidade, nos espaços públicos, nas relações. Nos encontros.

 

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