Desemparedamento: aprender além dos muros da escola

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21 maio Desemparedamento: aprender além dos muros da escola

O contato com a natureza é grande aliado no crescimento e desenvolvimento da criança. Ambientes ricos em áreas verdes, como as escolas com pátios, praças, parques e espaços livres para o brincar, promovem saúde física, mental e ajudam o desenvolvimento de habilidades cognitivas, sociais, motoras e emocionais durante a infância.

Como estímulo ao contato com a natureza e, principalmente à maior presença de áreas verdes naturais nas escolas, o Criança e Natureza, programa do Alana, desenvolveu a publicação ‘Desemparedamento da Infância: a Escola como Lugar de Encontro com a Natureza’ que já está disponível online para download e será lançada amanhã, 22 de maio, às 18h, em Novo Hamburgo (RS), durante a abertura da III Semana Municipal do Brincar.

No início do mês, houve o primeiro lançamento da publicação, onde Vivian Katherine Fuhr Melcop, representante da UNDIME – União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, concedeu uma entrevista exclusiva para nosso site. Vivian trouxe contribuições fundamentais para se pensar os caminhos possíveis para as escolas no que se refere ao tema do desemparedamento. Confira!

IMG_0102É possível pensar os pátios escolares como um espaço de aprendizado junto da natureza?

Muitas vezes idealizamos os pátios escolares, mas a realidade pode nos mostrar espaços cimentados ou pequenos quadrados de areia, com brinquedos de plástico ou madeira. O ideal são espaços onde a natureza, para além do contato, também seja caminho para a produção de conhecimento, para o aprender coletivo. Infelizmente não são todas as escolas que vão ter essas condições. Nesse ponto entra a questão do gestor, tanto o gestor da rede quanto o gestor da escola, precisa qualificar as condições de contato com a natureza que são ofertadas às crianças, de forma organizada e com apoio de toda a comunidade escolar. Se a escola não possui em sua estrutura essas condições, pode-se pensar parcerias com a comunidade, com a vizinhança, enfim, extrapolar os muros da escola para poder oferecer isso às crianças.

É ter compromisso junto com a qualidade do que é ofertado,  mas dentro da realidade do que é possível?

Isso! Ver o que que é possível ser feito, mas ver a possibilidade de se fazer um pouquinho a mais. Conversando com a comunidade, como, por exemplo, a experiência de Novo Hamburgo. Ao abrir um portão lateral, por exemplo, a escola conseguiu acessar a praça e o parque municipal. Às vezes, uma parceria com órgãos oficiais no sentido de manter um parque com limpeza e segurança já é possível ofertar experiências muito mais valiosas às crianças.

Nesse sentido, as parcerias, tanto com órgãos públicos, como prefeituras, quanto com instituições que tenham esse tipo de abertura são válidas?

São válidas e é sempre bom buscar a parceria. Mas é importante que a gestão da escola, a comunidade e a gestão da secretaria participem para verificar e institucionalizar as parcerias.  A formalização é importante porque, como envolve crianças, tem risco, tem a questão da segurança e da estrutura. Assim, é importante que sigam os padrões formais, que seja tudo muito bem documentado e formalizado.

IMG_0089No sentido dos desafios, como você vê o tema: gestão, família e comunidade escolar para além da educação infantil? Como se estruturam os desafios e possibilidades?

Na educação infantil já é senso comum que a criança tem direito ao brincar, o problema é a compreensão sobre a qualidade deste brincar. Talvez a qualidade do brincar não seja compreendida por todos e para isso todos nós precisamos estar atentos. Já no ensino fundamental, os pais têm muita ânsia por acelerar o processo de ensino e aprendizagem, na verdade isso vem desde a educação infantil. No período anterior a alfabetização, já se percebe esta necessidade de acelerar “quanto mais cedo meu filho se alfabetizar melhor, mostra que ele é mais inteligente. Se falar inglês então, melhor ainda!”. Na verdade, essa antecipação, às vezes, é negativa. Atrapalha a criança, porque queima etapas e impede que ela participe de outros processos. Vai consumindo tempo. E isso é uma dificuldade da família em compreender possíveis prejuízos para a criança, para o estudante. Para isso, tem que ter uma conversa da gestão escolar com os pais e demonstrar que não é bom, que é importante que ele vivencie, que ele experimente, que ele investigue e que, se ficar antecipando o ensino e aprendizagem, você vai estar prejudicando em outros aspectos. Se na educação infantil eles já querem antecipar, no ensino fundamental eles vão falar “Tá enrolando meu filho. Vocês não estão querendo ensinar meu filho” aí é mais difícil ainda.

E a natureza é um antídoto, um facilitador de processos de aprendizagem, de construção de conhecimento?

O professor sabendo utilizar a natureza, os fenômenos da natureza, a própria natureza em si, sim. No ensino fundamental tanto as brincadeiras, quanto pular uma árvore, ver um galho, experimentar, ver os fenômenos, a luz, as cores, a textura, tudo é conhecimento, descoberta. Há processos ainda mais complexos que podem ser propostos desde sempre. Na educação infantil, há um mundo inteiro que a natureza oferece! A base de tudo é a natureza. Todo esse processo deve ser construído coletivamente com a escola, família e comunidade. É um processo complexo, mas não impossível. Aí vem a construção de um currículo e um projeto político pedagógico que envolva todo mundo, mostrando o sentido da proposta, o porquê do brincar. Você vai, por exemplo, brincar com a física e vai demonstrar porque que o arco-íris fica branco, o processo das cores e tudo mais. Assim, vão vendo o aprender no brincar, na natureza, nos espaços ao ar livre e entender que não estão enrolando as criança, elas realmente estão estudando.

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