Uma agenda infantil pautada pela natureza

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16 mar Uma agenda infantil pautada pela natureza

Pai de uma menina com Síndrome de Down, Ricardo Augusto Pontes Piedade pagava várias terapias para a filha e achava que estimulá-la ao máximo a ajudaria. Hoje, ele mudou de opinião.

16/03/2018

Ricardo Augusto Pontes Piedade é um pai dedicado. Advogado, ele trabalha em um escritório, dá aulas e ainda publica vídeos sobre o tema. Ele quer prover o melhor para seus filhos, Maria Gabriela, de 7 anos, e Leonel Davi, de 4 anos.

Durante algum Familiatempo, ele e sua mulher pensaram que o melhor, principalmente para Gabriela, seria pagar por terapias, atividades e acompanhamentos que a estimulassem. Faz uns dois anos, ambos experimentaram outro caminho. E estão se convencendo do que foi essencial: proporcionar aos filhos momentos de brincadeiras ao ar livre e maior contato com a natureza.

Em que momento vocês perceberam que era necessário mudar a rotina das crianças?

Desde que nasceu, a Gabriela tem o melhor acompanhamento que você possa imaginar: psicopedagoga, fonoaudióloga, terapeuta ocupacional, fisioterapeuta, natação… No momento em que deixamos a maternidade, já havia profissionais para ajudá-la. E até os 4 ou 5 anos de idade, ela ia tranquila, estava progredindo. Fomos levando a vida assim. Mas, à medida que Gabi foi crescendo, ela começou a resistir. No melhor da brincadeira ela tinha de parar para ir a algum compromisso… Ela até rendia uma vez que estava lá, com os profissionais, mas passou a ser uma luta levá-la.

Ela conseguia dizer o que havia com ela?

A partir de um certo momento, além de não querer ir às atividades e terapias, a Gabi começou a desenvolver umas cascas no couro cabeludo e seu cabelo começou a cair. Fizemos consultas médicas e percebemos que era um sinal de estresse. Decidimos que, com a chegada próxima das férias escolares, deixaríamos todas as atividades de lado e tiraríamos umas boas férias na praia e na fazenda. Só para curtir natureza e brincadeiras. A mudança da Gabi foi impressionante. Ela passava o dia no mar, brincando, feliz. Seu cabelo melhorou completamente e ela retomou o ano letivo seguinte renovada.

Que efeito essa constatação teve para vocês?

Foi uma surpresa ver como ela curtia estar entre os filhotinhos de bichos na fazenda, no riacho, como ela gosta de viver ao ar livre, de catar frutas das árvores, ver a mudança que aconteceu com ela. Acreditávamos que, quanto mais terapias e atividades fizesse, melhor seria para o seu desenvolvimento, mas a verdade é que nossa filha tinha uma agenda de executiva: duas terapias pela manhã, escola, chegava de noite, exausta. Aquelas férias foram o indicativo de que isso tinha que mudar. Ela é uma menina doce, e no final do ano começou a morder outras crianças. Os outros pais mesmo diziam para a gente: “A Gabi não é assim, o que está acontecendo?” A partir desse momento, refizemos toda a agenda, repensamos as atividades, mudamos.

E qual foi o resultado?Gabi1

Alguns terapeutas foram intransigentes, disseram que mesmo a parada durante as férias faria a Gabi regredir. Acabamos por mudar de profissionais. A gente viu a melhora dela! A importância que teve para ela parar, brincar, curtir a natureza livremente. Hoje, vamos sempre que podemos para a praia ou o campo nos finais de semana, diminuímos o ritmo de atividades dela e deixamos a sexta-feira livre: ela tem o dia todo para brincar. A primeira coisa que ela faz quando chega na fazenda ou na praia é tirar a camiseta, ficar à vontade. Ela mesmo começa a pedir quando sente falta. E Gabi não regrediu, muito pelo contrário: começou a se desenvolver mais nos últimos dois anos, todos notaram: entendem melhor o que ela diz, ela escreve letras, melhorou muito.

Você acha que o contato com a natureza contribuiu para essa mudança?

A questão é que a Gabi não tinha uma vida de criança. Por mais que a gente renuncie a tanta coisa para trabalhar e pagar as contas, que são muitas, vimos que ela levava uma vida de executiva. Às vezes a gente quer fazer o melhor por um filho, até se sacrifica por isso, mas está no caminho errado. Minha esposa abriu meus olhos naquelas férias e o contato da Gabi com a natureza mostrou que aquilo tudo que ela tinha era estresse. Agora, eu a deixo à vontade, a levo à praça, damos comida aos cachorros juntos. Hoje entendo que ela tem de ter tempo para brincar, estar ao ar livre. E estou vendo o quanto o resultado tem sido positivo.

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