Para se ver de perto

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24 maio Para se ver de perto

Fernanda Cury organiza viagens para conectar pais e filhos entre si – e com a natureza

IMG_5933O trabalho atual de Fernanda Cury nasceu de uma angústia que ela teve como mãe: “eu ia com minhas duas filhas (hoje com 6 e 9 anos) para parques, viajava com elas para o mato, mas via que minhas amigas só iam ao shopping. E que ficavam sempre receosas de seus filhos subirem em árvores, terem algum contato com a natureza”, conta. “Isso me incomodou. Comecei a querer mostrar para outros pais e mães como era importante e legal estar com a família em meio ao verde.”

Assim nasceu o VerDe Perto. Fernanda e sua amiga e sócia, Camila De Mauro, promovem vivências para famílias. A primeira viagem, durante um feriado, aconteceu em 2016. “Encontrei um lugar numa reserva florestal próxima de Atibaia e levei dez famílias”, conta Fernanda. Dormindo em barracas e ajudando na organização, quase 40 pessoas experimentaram um jeito diferente de viajar. De lá para cá, algumas adaptações foram feitas, mas as convicções da Fernanda não mudaram: “os relatos das pessoas são tocantes, eles me alimentam, me impulsionam a continuar”, diz. Abaixo, ela conta o que observou durante suas experiências com famílias na natureza.

Você acha que o fato de estarem ao ar livre muda algo nas famílias?

Sim, eu vejo que as relações entre pais e filhos mudam. Primeiro, porque durante nossas viagens eles convivem durante um tempo maior. Depois (e bem importante!) porque vamos para lugares sem TV, onde o celular não pega. Vejo a dificuldade dos adultos em se desconectarem e a enorme diferença que isso faz. Assim que pegamos uma estradinha de terra, já vamos entrando em outro ritmo. Muitos falam: “nossa, esses três dias pareceram uma semana!”. Acho que os pais conseguem relaxar e enxergar os filhos durante esse tempo, e as crianças se sentem enxergadas de outra maneira. Há uma presença que acontece. E isso muda as relações.

IMG_1495As famílias fazem atividades juntas?

Não temos monitores, nem uma programação fechada. E quando propomos uma atividade, como trabalhar com argila, por exemplo, isso permanece ali, não tem essa de “se não for das 9 às 10 trabalhar com argila, vai perder”. Acho que é preciso dar um tempo para conhecer o grupo, saber o que as pessoas querem e gostam de fazer e deixar as coisas fluírem. Isso da oportunidade aos pais também para resgatarem suas próprias infâncias, poderem ensinar brincadeiras de que eles gostavam aos filhos. Numa das viagens, um pai começou a fazer um arco e flecha com bambu, que era algo com que ele brincava quando menino. E o filho ficou encantado, admiradíssimo! Ele nunca tinha feito um para o filho e isso gerou muito papo, muitas conexões. É legal ver pais e crianças participando, descobrindo habilidades que eles não sabiam que tinham. Outro dia um menino falou: “Eu lavava tão bem a louça que todos me pediam para lavar. E eu curti!”. Ele descobriu uma habilidade ali.

Todas as viagens são acampamentos?

Não, fazemos três viagens por semestre e atualmente vamos mais a locais com alojamento, mas a ideia de juntar pais e filhos na natureza permanece. E de se permitir brincar na lama, andar na chuva, subir na árvore, colher frutas no pé. Outro dia tinha uma criança olhando o céu, mais afastada dos outros que estavam ao redor da fogueira. Uma mãe quis chamá-la, porque achou que ela tinha brigado com alguém, estava sozinha. Mas o menino estava observando, viajando! Eu falei: deixa. Nós, adultos, temos uma ansiedade muito grande, uma vontade de intervir, de entreter o tempo todo. É muita aceleração, muita urgência. Vejo que a natureza também ajuda a encontrar um lugar de calma, de acolhimento.

25 fev 17 F 034Quais foram as experiências mais marcantes?

Tem um local aonde vamos, a Fazenda da Serrinha, com várias instalações artísticas com as quais podemos interagir e também uma oca, dentro da qual acendemos fogueiras. Uma atividade que gosto de propor é uma caminhada pela trilha até essa oca, em que os filhos guiam os pais que vão vendados pela mata. É uma experiência que muda um pouco os lugares, que exige uma confiança, em que os pais podem ver os filhos com mais autonomia. As crianças estão ali em uma situação de liderança, estabelecendo uma parceria com os pais. É muito bacana. Teve também uma amiga que levou os filhos de 9 e 14 anos. O mais velho tinha até um convite para viajar com amigos e eu fiquei apreensiva, porque não tinha ninguém da idade dele conosco. Mas foi ótimo! Muitas vezes só o fato de estarem juntos e relaxados faz surgir coisas boas, simples. Essa família me falou que que nunca tinham passado tanto tempo sentados à mesa conversando, dando risada. No final da viagem, esse menino adolescente disse para a mãe que havia percebido que tinha crescido, que sua infância tinha terminado e agradeceu a ela por todas as coisas boas que tinha lhe dado. Foi muito emocionante e único ter a chance de proporcionar esse momento de abertura, de reconhecimento.

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