Quem cuida do seu quintal cuida do mundo inteiro*

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30 jan Quem cuida do seu quintal cuida do mundo inteiro*

Educador ambiental participante do Curso para Mobilizadores de Grupos Natureza em Família, conta sobre seu trabalho de agricultura urbana com crianças da zona oeste do Rio de Janeiro

Por Mariana Sgarioni

30/01/2018

DSC_0016O estudante Lucas, de 11 anos, sonhava em ter uma horta em seu quintal. O problema é que sua casa, de apenas um cômodo, não tinha espaço, muito menos quintal. Ele pensou, pensou, e achou um jeito: juntou amigos e plantou tomates na rua em que mora. Resultado: o que era para ser uma horta só dele, virou um lugar de toda a vizinhança plantar e colher. “As crianças têm um jeito especial de resolver problemas. Nosso trabalho é escutá-las”, diz o educador ambiental Paulo Henrique Sales Monteiro, 39 anos.

Ex-jogador de futebol, formado em treinamento pela CBF, Paulo migrou para a área de conservação e educação há 18 anos. Atualmente, trabalha no projeto Mais Criança, da Fundação Xuxa Meneghel, em Pedra de Guaratiba, zona oeste do Rio de Janeiro. Suas aulas recebem crianças da região de 8 a 15 anos. Elas aprendem desde compostagem, captação de água da chuva, até revitalização de áreas próximas, e o plantio de hortas nos quintais e comunidades. “Nosso objetivo é mostrar para as crianças que o alimento não nasce no mercado, ou no sacolão. Nasce da semente. Que precisa ser cuidada, como todos nós”.

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Como funciona seu trabalho em Pedra de Guaratiba?

As crianças frequentam a Fundação depois do horário escolar. Trata-se de educação ambiental. Elas chegam e começam a compor nossa “árvore” chamada Pé de Feijão. Nas raízes estão os lugares da região que precisam ser melhorados: uma rua que tem muito lixo, uma praça abandonada, um jardim sujo, um espaço para horta. São atitudes que as próprias crianças podem tomar sem a ajuda de muita gente. Elas também trabalham em compostagens, captação de água da chuva, cuidado com hortas. Recentemente, as crianças identificaram uma área de proteção ambiental aqui perto que estava abandonada, sem sinalização, lixeira, segurança, nada. Conseguimos que a prefeitura nomeasse uma diretoria para cuidar do local. É importante que a criança não pense apenas no seu próprio espaço, mas também na comunidade como um todo.


IMG_4719O foco do trabalho é a agricultura urbana?

Sim. Fazemos compostagem dentro da Fundação: cada criança tem um baldinho, que leva pra casa, e traz com as sobras de alimentos. Misturamos o material orgânico com folhagens e isso vira adubo orgânico. Elas voltam para casa com esse material para fazer a horta no seu quintal. Aprendem técnicas de plantio, levam sementes e mudas. Nosso composto foi analisado pela Embrapa e eleito um dos melhores compostos no Rio! As famílias dizem que houve mudanças na alimentação de todos: com o cultivo, veio a introdução de frutas e verduras no prato.

De que maneira o Curso para Mobilizadores de Grupos Natureza em Família contribuiu para suas atividades?

Participei de dois cursos e foram muito importantes. Não apenas pelo acréscimo de materiais de trabalho, como também pela possibilidade de aprender novas metodologias e conhecer pessoas com outras iniciativas. Com o aprendizado do curso, conseguimos agregar mais educadores ao nosso trabalho, mobilizando ainda mais pessoas. Foi realmente enriquecedor. Nossa sugestão é que o próximo curso inclua a participação de crianças.

Por que?

O olhar das crianças é diferente do nosso. Temos que ouvi-las. Muitas vezes a gente não consegue enxergar caminhos que elas conseguem. O Lucas, por exemplo, é um aluno de 11 anos. Ele queria plantar, mas não tinha quintal. Para os adultos seria impossível. Pois ele achou um jeito: plantar na rua, junto com os amigos. A Rebeca é outra aluna de 12 anos. Ela mobilizou a rua dela inteira para coletar óleo de cozinha usado. Foi ela quem teve a ideia de orientar os moradores para que não descartem este óleo na pia. Ela foi além e mobilizou todo mundo. Nós não tínhamos pensado em ir tão longe e ela foi. Eles aprendem que cuidar das coisas mais triviais do dia a dia significa cuidar do planeta inteiro.

IMG_4656Seria como cuidar das próprias pessoas?

Sim. Quem não for cuidado, não sobrevive. A agricultura urbana mostra que a educação começa dentro do seu quintal. Conhecer a terra, o espaço, entender que o alimento que precisamos para sobreviver vem da semente, que precisa ser cuidada. E assim ela cresce, a vida cresce. Isso é possível – inclusive para quem não tem quintal. Crianças que moram em apartamentos podem plantar comida. Por meio das nossas janelas, mobilizamos o condomínio inteiro.

* Refrão da música Quintal, do grupo A Banda Mágica

https://www.youtube.com/watch?v=DrcuizGMyE4