Receita médica: passear pela floresta *

Andy Isaacson para The New York Times

03 ago Receita médica: passear pela floresta *

Matéria originalmente publicada no New York Times no dia 12 de julho de 2018. 

 

A imersão na natureza, conhecida como “banho de floresta”, está sendo adotada por médicos e outros como um método de reduzir o estresse e melhorar a saúde.

 

Por Amitha Kalaichandran, M.D.

Numa manhã chuvosa de sábado em agosto do ano passado, eu me juntei a 10 outras pessoas num bosque perto da cidade de Ottawa, no Canadá, para participar de uma sessão de “banho de floresta” promovida por um resort florestal da região.

Primeiro sentamos em um círculo no chão coberto de folhagem, cada um compartilhando um momento na natureza da sua infância que trazia felicidade. Após isso nossa guia, Kiki, uma terapeuta florestal recém-treinada que insistiu em ser chamada pelo nome próprio, nos guiou por uma atenciosa – e bem lenta – caminhada pela floresta.

“O que vocês conseguem ouvir, cheirar, ver?” perguntava Kiki, nos incentivando a usar todos os cinco sentidos para entrar em uma “imersão” profunda desta vivência.

Uma senhora mais velha nos contou que estava passando por um período difícil e desgastante na vida, e que estar no meio das árvores dava uma sensação de “regeneração”. Outros disseram que essa atividade trazia lembranças das caminhadas que faziam quando eram escoteiros, ou comentavam sobre os sons: insetos, pássaros, o movimento das folhas. Eu notei o verde das bolotas de carvalho espalhadas pelo chão, que me fez lembrar as coletas de castanhas que eu fazia quando era criança. Devo admitir, também me preocupava que a chuva matinal oferecia um ambiente propício para vorazes mosquitos (febre do Nilo!) e carrapatos (doença de Lyme!).

Encerramos nossa caminhada de duas horas pela floresta com uma cerimônia do chá, bebendo uma infusão feita de agulhas de pinheiro na água quente. Eu fui embora sentindo relaxada e mais calma, apesar de ter pelo menos algumas dezenas de picadas de mosquitos que pareciam imunes ao repelente.

Kiki foi orientada de acordo com as diretrizes estabelecidas pela Associação de Terapia Natural e Florestal, uma entidade profissional que já certificou mais de 300 pessoas na América do Norte para serem guias de terapia florestal, entre eles psicoterapeutas, enfermeiras, e seis médicos. As sessões de terapia são baseadas na tradição japonesa do shinrin-yoku, ou banho de floresta.

Ao longo dos anos, vários médicos mentores me recomendaram os livros de Richard Louv, “O Princípio da Natureza” e “A Última Criança na Natureza”, que descrevem os benefícios do tempo passado na natureza, desde o estímulo criativo até a redução do estresse. O best-seller escrito por Florence Williams, “A Natureza Cura”, dedica um capítulo para os benefícios da terapia florestal. E agora parece que mais e mais médicos norte-americanos estão incluindo o tempo passado na floresta em suas práticas medicinais.

Alguns pequenos estudos, a maioria conduzidos no Japão e na Coréia do Sul, indicam que passar tempo na natureza, mais especificamente em florestas densas, pode reduzir o estresse e a pressão arterial (principalmente em homens de meia-idade), melhorar a variabilidade da frequência cardíaca e reduzir os níveis de cortisol, além de dar uma animada no humor. Uma análise de estudos feita em 2010 com um foco no exercício na natureza revelou melhoras na auto-estima, especialmente entre os participantes mais jovens. Os efeitos gerais sobre o humor eram maiores quando havia um córrego ou outro corpo de água por perto.

Porém, outros estudos mostram resultados menos conclusivos. Um estudo transversal feito na Coréia não achou nenhuma mudança na pressão arterial durante o banho florestal, e uma revisão sistemática feita em 2010 concluiu que apesar do tempo passado na floresta poder melhorar o ânimo e o humor, os efeitos sobre a atenção, pressão arterial e cortisol não têm relevância estatística.  Outra revisão mais recente feita na Austrália reitera a dificuldade em apresentar conexões causais para a prevenção de doenças, e os autores pedem uma testagem robusta com estudos controlados randomizados.

Várias teorias já foram apresentadas para explicar porquê o tempo passado em florestas pode oferecer benefícios para a saúde. Algumas sugerem que as substâncias químicas emitidas pelas árvores, conhecidas como fitocidas, têm um efeito fisiológico no nosso nível de estresse. Outras sugerem que os sons da floresta – pássaros cantando, o balanço das árvores – possuem um efeito fisiológico calmante. Porém, existem poucas evidências para apoiar essas teorias.

Durante uma visita recente ao Japão, eu encontrei com a Dra. Hiroko Ochiai, uma cirurgiã no Centro Médico de Tóquio, e seu marido, Toshyia Ochiai, o atual chefe executivo da Sociedade Internacional de Medicina Natural e Florestal. A Dra. Ochiai é treinada em terapia florestal e atualmente conduz a maioria de suas sessões com voluntários em um bosque em Nagano, a mais ou menos três horas de distância de Tóquio, com a ajuda de um guia local, e planeja oferecer terapia florestal em breve em um dos maiores hospitais da capital japonesa.

“Normalmente eu incentivo os participantes a sentar ou deitar no chão da floresta e ouvir os sons”, conta a Dra. Ochiai. “O aspecto hipersônico do mundo natural pode ser um calmante, e as coisas estão sempre em movimento, mesmo quando estamos parados. Pode ser muito relaxante”.

Em junho do ano passado o Instituto do Câncer do Northside Hospital em Atlanta, nos Estados Unidos, começou a oferecer formalmente a terapia florestal como parte de um projeto piloto em colaboração com o Centro de Natureza de Chattahoochee. Doze pacientes recém diagnosticados com câncer se cadastraram para uma sessão, de acordo com Christy Andrews, a diretora executiva da Comunidade de Apoio ao Câncer em Atlanta.

“Foi um sessão de quatro horas que pareceu ter um efeito positivo nos pacientes”, explica ela. “Eu lembro de um paciente me contando depois que foi um jeito de ‘desviar do câncer’, e o grupo ficou bem coeso. Eu acho que ajudou a reduzir a sensação de isolamento de um modo diferente de uma sessão normal de grupo de apoio”.

A Dra. Suzanne Bartlett Heckenmiller, uma ginecologista obstetra na cidade de Cedar Falls, no estado de Iowa, começou a guiar as pacientes do seu consultório pela floresta de Prairie Woods, na cidade de Hiawatha, e também tem levado grupos pelas florestas perto da capital do estado, Des Moines. Três anos atrás ela virou uma guia certificada pela Associação de Terapia Natural e Florestal, e hoje ela tenta adequar suas atividades baseado no perfil do grupo que ela vai guiar.

“Eu tento ter uma ideia geral da situação das pessoas. Pra mim é melhor eu me guiar pela ciência, mas outros talvez queiram literalmente abraçar as árvores. A tradicional cerimônia do chá no final pode assustar algumas pessoas, então eu procuro estar ciente disso e ajustar de acordo com eles,” explica Suzanne.

Em um dos exercícios, ela faz os participantes fecharem os olhos enquanto ela os guia pela experiência dos diferente sentidos, imaginando, por exemplo, a sensação dos pés crescendo para dentro da terra como se fossem raízes, ouvindo os sons ao redor e observando até onde eles vão, ou sentido o cheiro do ar. É muito semelhante a um sessão guiada de meditação.

“Recentemente eu conduzi uma sessão em que quatro dos vinte participantes eram cadeirantes, então eu achei um parque com muitas árvores e uma calçada pavimentada para todo mundo participar,” conta Suzanne.

No Hospital Infantil Benioff na cidade de Oakland, da Universidade de Califórnia em São Francisco, a Dra. Nooshin Razani, uma pediatra especializada em doenças infecciosas e diretora do Centro para Natureza e Saúde, tem oferecido um programa semelhante faz quatro anos. O programa “Shine” (Brilho), vinculado ao sistema de parques da região, oferece “receitas médicas florestais”, um movimento crescente que procura melhorar o acesso à natureza para crianças de baixa renda.

Um sábado por mês, Dra. Razani lidera um grupo de até 50 pessoas por uma exuberante floresta de pinheiros e lagos perto da cidade de Oakland. Os grupos consistem de pacientes que podem ter desde poucos meses até 18 anos, acompanhados por pelo menos um adulto da família. Alguns de seus colegas – um cirurgião ortopedista e um clínico geral – também já participaram, e o programa de residência em pediatria dos centros médicos da região de Oakland convida outros médicos a irem com o grupo. O programa Shine recentemente fez sua 60a. visita a um parque.

“O aspecto da acessibilidade é muito importante para mim. Muitas crianças não têm acesso a espaços verdes em suas comunidades,” explica Dra. Razani. “Também temos evidências que apoiam os aspectos da saúde mental de passar tempo em florestas, e para os médicos residentes que participam é um jeito de mostrar como crianças interagem com a natureza baseado nos estágios de desenvolvimento. Às vezes as necessidades dos médicos é tão grande quanto a dos pacientes”. Em fevereiro, Dra. Razani publicou os resultados de um estudo randomizado que mostrou que visitas aos parques – guiadas ou não – são associadas a uma redução de estresse três meses mais tarde.

Poucas horas depois da minha caminhada pela floresta, a mulher no nosso grupo que havia falado do seu estresse me enviou um email dizendo que mediu sua pressão depois do passeio e notou que estava mais baixa que o normal. “Seria bom saber se houve uma mudança significativa comparado com antes, se eles coletaram essa informação”, ela me escreveu.

Ela tocou em uma das maiores dúvidas em torno das caminhadas guiadas pela floresta e da terapia florestal. É uma atividade baseada em evidências com benefícios clínicos confirmados?

Faltam estudos científicos para comprovar isso. Mas existem algumas evidências – e também o bom e velho senso comum – que sugerem que passar tempo na natureza traz benefícios tanto para o corpo quanto para a mente, seja em grupo ou sozinho. Talvez seja algo que todos nós precisamos fazer mais.

Amitha Kalaichandran, M.H.S., M.D. (@DrAmithaK) é uma médica residente em pediatria em Ottawa, Canadá.