Respeito à natureza: uma lição aprendida na infância

Parque Estadual da Cantareira

08 fev Respeito à natureza: uma lição aprendida na infância

Professora de engenharia florestal da USP afirma que é preciso sensibilizar os jovens para questões ambientais desde cedo

Por Mariana Sgarioni

Da infância, na pequena Sertãozinho, no interior de São Paulo, sobrou a sensação gostosa dos banhos nas águas limpas e transparentes do rio que passava atrás de sua casa. Tinha até peixe nadando em épocas de cheia. Não era frondoso como o rio Tejo, já diria o poeta Fernando Pessoa, mas era o rio mais belo do mundo porque era o rio que passava em sua aldeia. É esta a primeira lembrança que Teresa Cristina Magro, de 56 anos, guarda em sua memória quando fala dos tempos de criança. “Hoje este rio não existe mais, virou um esgoto a céu aberto”, conta, com pesar, a professora de manejo de áreas protegidas do curso de Engenharia Florestal da ESALQ/USP.

Teresa atualmente encara o desafio de sensibilizar os jovens universitários que, segundo ela, chegam à faculdade cada vez mais distantes do contato com a floresta e a natureza. “Se as pessoas não vêem a floresta, não convivem com ela desde crianças, podem passar a acreditar que ela não é necessária. São poucos os jovens que já chegam aqui sensibilizados, há muito trabalho a ser feito”, diz.

Na entrevista a seguir, Teresa conta um pouco de sua trajetória, suas aulas, e cogita a importância das famílias investirem no contato ao ar livre durante a infância como uma maneira de formar conservacionistas no futuro.

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É possível dizer que uma criança que teve uma intensa convivência com a natureza tem mais facilidade de tornar-se um profissional da área de conservação no futuro?

Não tenho dados concretos ou pesquisas para fazer esta afirmação. Entretanto, existe minha observação do cotidiano da universidade. Quando os calouros chegam no curso de engenharia florestal, em primeiro lugar, percebo um grande desconhecimento do que faz um engenheiro florestal. Um médico, um dentista, um advogado, todo mundo vê e sabe o que faz. E um engenheiro florestal, que ninguém vê? Depois percebo que aqueles que já chegam sensibilizados para a conservação da natureza – a minoria – em geral contam que tiveram contato com profissionais da área ou que realmente guardam lembranças de boas experiências na natureza, e por isso querem protegê-la. Mas como eu disse é uma minoria.

Por que você diz isso?

No primeiro dia de aula, costumo pedir aos meus alunos que relatem, em uma folha de papel, o que fazem nas horas de lazer, além da melhor e da pior experiência que tiveram num ambiente natural. Este relato me ajuda a conhecê-los melhor. O que mais me chama a atenção nas respostas é que quase ninguém tem experiência em floresta: para eles, ambiente natural significa praia. Só. E menos de 30% conseguem relatar alguma experiência positiva ali. Eles só se lembram de fatos ruins: muito lixo na praia, assaltos, maus tratos a animais, afogamentos. E lembram de fatos que consideram desagradáveis, mas que fazem parte da experiência natural normal, como mosquito e calor, por exemplo. Existe uma diferença da paisagem que vemos na fotografia ou na internet para aquela real, que não é perfeita. Tem chuva, vento, mosquito. Mas as intempéries do ambiente fazem parte da experiência, do aprendizado, que esta geração parece desconhecer. A natureza não é como a fotografia.

Você acha que isso tem a ver com a infância que estes jovens tiveram?

Provavelmente. Numa turma de 40 alunos, por exemplo, só dois contam que tiveram a experiência de acampar com os pais. Outro dia eu estava no campo com estagiários e uma aluna disse, quase chorando de alegria: “Olha, um bezerro! Nossa, eu nunca tinha visto um bezerrinho!”. Veja: esta moça, que já foi uma criança, nunca viu um bezerrinho na vida. Nem pela janela do carro, numa estrada. Nem em um sítio. Nunca. A gente supõe que uma criança, ainda que ela seja urbana, viaje de vez em quando, visite lugares naturais. Mas não é bem assim.

Teresa e estudantes da ESALQ no Parque Estadual da Cantareira

Teresa e estudantes da ESALQ no Parque Estadual da Cantareira

Como são estes jovens em suas aulas práticas?

Nós vamos à Serra da Cantareira e ao Parque Estadual Carlos Botelho. São expedições para planejamento de trilhas em unidades de conservação. Em primeiro lugar, vejo que vários alunos nunca fizeram uma trilha na vida. Eles adoram atividades ao ar livre, mas se cansam rápido, muito antes de mim, que tenho 56 anos e limitações físicas comuns da idade. Tive que mudar os trajetos dessas aulas para caminhadas leves – duas horas andando já é muito para eles. Sem contar que a noção espacial é limitada: se eles andam 300 metros não têm noção de onde estão nem de quanto andaram. Quando entram numa área de floresta em que a referência não está lá (o shopping, a padaria, a loja) eles se perdem. Preferem mapas eletrônicos, aplicativos de celular. Transitam muito bem com isso. Acho ótimo, mas ainda acredito que precisamos saber coisas básicas em casos de falta de tecnologia. Foi isso que procuramos passar para nossa filha adolescente. [Sophie, de 17 anos].

Teresa Cristina Magro com a filha Sophie

Teresa Cristina Magro com a filha Sophie

O que você fazia nas horas de lazer quando a Sophie era criança? E onde ela está agora?

Meu marido também gosta de acampar e de estar na natureza. Então saíamos muito. Aos domingos, em vez de tomar café da manhã em casa, íamos para a Estação Experimental de Tupi, conhecida como Horto de Tupi, e tomávamos café lá. Andávamos de bicicleta com ela, frequentávamos praças. Conforme ela foi crescendo, fomos ampliando os lugares de passeio, dentro e fora no Brasil. Percebo que ela hoje tem capacidade de tomar iniciativas, elabora bem o que vai fazer, pensa no ambiente e nas pessoas. Localiza-se bem. Neste ano ela está morando na Holanda. Ela e um amigo pegaram um mapa, estudaram caminhos e saíram andando por quatro ou cinco dias. Agora ela quer viajar pelo mundo de bicicleta para ver o que precisa ser feito, descobrir do que o mundo precisa.

Ela parece ter os ideais da mãe… [risos]

Bom, na idade dela eu achava que ia reflorestar o Nordeste… [risos]. Logo percebi que isso era bobagem… [risos]. Mas minha infância foi inteira num sítio, eu ia à cidade apenas para estudar. Meu refúgio era no meio do mato. Subia numa árvore quando precisava me esconder, me proteger. Os poucos momentos que eu tinha para ver televisão, assistia a seriados com um guarda florestal – eu queria ser como ele [risos]. Estes programas eram interessantes porque mostravam a natureza com interação, divertimento, felicidade. Atualmente, a televisão mostra sempre os ambientes naturais como algo perigoso, um desafio a ser vencido, ultrapassado. Na minha infância, a natureza era aliada. Mais tarde, já adolescente, descobri que tinha um curso que se chamava engenharia florestal para trabalhar com parques e conservação.

Qual o papel das universidades da sensibilização dos jovens?

No curso de engenharia florestal deveria ser mais fácil, mas não é. A sensibilização não funciona se vier com aquele discurso altruísta de que a natureza deve existir por si só. Temos que mostrar os benefícios que ela traz para o homem. Lidamos com a área de produção e produtividade, então visamos a ação. Quais os elementos para conservar o solo, a água, por exemplo. É interessante lembrar que hoje a conservação dos recursos naturais está na moda, então não é muito simpático estar numa universidade e ignorar esta questão.

Teresa e a filha Sophie

Teresa e a filha Sophie

É preciso então começar desde cedo?

Com certeza. Se a gente não vê a floresta, não convive com ela, podemos acreditar que ela não é necessária. A floresta não é só um lugar para prover recursos, não é só um lugar bonito. Ela influencia diretamente na saúde física e mental das pessoas. Você sabia que o esterco, por exemplo, contém um fungo que é similar a elementos que produzem a felicidade no cérebro humano? Justamente aquele cheirinho de cocô que parece incomodar muita gente, no fundo, está fazendo o bem. Por outro lado, o ambiente artificial faz um mal danado. É questão de saúde, simples assim.