O mundo que acolhe a criança hoje

O contexto que apresentamos a seguir é o que justifica a urgência de implantarmos o Programa Criança e Natureza. O pesquisador e jornalista Richard Louv, co-fundador do Children & Nature Network, cunhou o termo Transtorno do Deficit de Natureza, que associa a falta de natureza na vida das crianças a impactos negativos na sua saúde, por meio de dados comprovados.

nacidade1_f6A sociedade contemporânea é predominantemente urbana. As crianças, em sua maioria, nascem e crescem em contextos urbanos.

No Brasil, 84% da população vive em cidades (IBGE, 2010) e 47% das pessoas não se sentem seguras na cidade em que moram (IBGE, 2010).

“A cidade diz que tem mil confortos pra me dar, é mentira da cidade, não sou livre pra brincar”

nacidade2_f6O modelo de crescimento das cidades compromete a oferta de espaços ao ar livre. As áreas verdes estão sendo substituídas por edificações e as áreas externas são cobertas e impermeabilizadas por cimento.

São Paulo tem apenas 2,6 m2 de áreas verdes por pessoa. O padrão internacional recomenda 12 m2. (Agência Estado, 2012)

“Nesta rua, nesta rua, não tem bosque”

nacidade3_f6A rua deixou de ser um espaço de encontro onde a criança pode brincar e andar livremente. Entre as causas estão a violência e o tráfego de veículos.

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A escola, na maioria dos casos, privilegia o desenvolvimento cognitivo, enquanto as crianças aprendem principalmente a partir do corpo em movimento, brincando.

Pesquisa realizada em uma escola municipal de educação infantil da região metropolitana do Rio de Janeiro apontou que num total de 32 dias de observações, em 11 as crianças estiveram no pátio. (Toledo, 2010)

“Uma volta, volta e meia é muito pouco pra brincar”

naescola2_f6Os espaços físicos são pequenos, desprovidos dos desafios e da diversidade próprios de terrenos naturais.

As atividades ao ar livre, o recreio e o livre brincar estão sendo eliminados do dia a dia escolar.

Pesquisa realizada em 30 creches nos EUA relata que 90% delas programavam duas ou mais sessões de atividades ao ar livre diárias com as crianças, entretanto as observações mostraram que apenas 40% das crianças participavam de duas ou mais sessões de atividades ao ar livre e 32% não brincaram ao ar livre. (American Journal of Preventive Medicine, 2016)

“É hora do lanche, mas eu não posso nem correr”

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familia1_f6O estilo de vida das famílias urbanas não contempla o brincar desestruturado ao ar livre.

Pesquisa sobre a primeira infância no Brasil (0 a 3 anos), sobre atitudes dos pais para estimular o desenvolvimento de seus filhos, apontou que 55% deixam assistir TV e desenhos. Entre as 12 opções oferecidas na pesquisa, nenhuma contemplava passeios ao ar livre. (FMCSV, 2013)

“Se essa rua, se essa rua, fosse minha, eu não parava de brincar”

familia2_f6As crianças vivem predominantemente entre quatro paredes. Nunca estão desacompanhadas e seu tempo está cada vez mais cronometrado e preenchido com atividades estruturadas.

“Sambalelê tá doente, só brinca dentro de casa”

familia3_f6Para muitos adultos, estar na natureza é sinônimo de perigo. O medo dos pais impede que a criança brinque sem a supervisão direta do adulto, tirando sua liberdade e autonomia para explorar e arriscar.

As crianças estão cada vez mais sujeitas a doenças mentais, distúrbios de linguagem e de sono, obesidade, hiperatividade, agressividade e depressão.

47% das crianças brasileiras estão com excesso de peso ou são consideradas obesas. (IBGE, 2010)

“Criança feliz que pode brincar, não fica lelé nem vai se estressar”

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Crianças tomam cada dia mais medicamentos, seja para acalmá-las ou para animá-las.

O Brasil é o segundo mercado mundial no consumo de metilfenidrato (substância química base para a produção de Ritalina e Concerta), atrás apenas dos EUA, com 2 milhões de caixas vendidas em 2010. (Ministério da Saúde, 2015)

Entre 2002 e 2003, a produção de metilfenidrato duplicou no Brasil. Entre 2002 e 2006 cresceu mais de 400%. (UNESP, 2012)

“O cravo brigou com a rosa por uma coisinha de nada”

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As crianças da atualidade lidam com duas dimensões: papel e tela de aparelhos eletrônicos. Na natureza tudo é 3D: tem textura, profundidade e cheiro.

A média de consumo de Internet entre crianças de 2 a 11 anos no Brasil é de 17 horas por semana conectadas ao computador. Elas representam 14,1 % dos usuários domiciliares ativos. (IBOPE, 2012)

As crianças brasileiras passam, em média, 5h35m em frente à TV. (IBOPE, 2014)

Para 97% dos pais brasileiros, a brincadeira mais frequente de seus filhos entre 6 e 12 anos é assistir TV, vídeos e DVDs em casa. (Instituto Unilever, 2007)

“Marcha soldado, só brinca no papel”