Missão Técnica – Freiburg, Alemanha

Texto e fotos: Laura Leal | Edição de texto: Paula Mendonça e Raika Moises

A Missão Técnica Criança e Natureza, organizada pelo Alana, esteve na Alemanha entre os dias 10 e 16 de setembro de 2017 e ofereceu a profissionais comprometidos com o tema criança, natureza e cidades, a oportunidade de conhecer uma das cidades biofílicas mais reconhecidas do mundo: Freiburg. Saiba como foi essa experiência no relato abaixo, produzido durante a viagem.

MODELOS DE LAMBE-LAMBE PARA INTERVENÇÃO URBANA DISPONÍVEIS PARA DOWNLOAD

Diário de viagem – 1º dia

Captura de Tela 2017-09-19 às 12.15.31Começou hoje nossa Missão Técnica em Freiburg, na Alemanha. Viemos conhecer o que faz com que essa cidade seja referência no planejamento sustentável, que integra a natureza com a vida urbana e é considerada amigável para as crianças.

Uma delegação de 17 brasileiros de diferentes organizações estará com a gente essa semana, acompanhando uma programação intensa de experiências que atentam para soluções de sustentabilidade urbana e qualidade de vida; políticas públicas; pesquisas e inovações sobre a relação da criança com a cidade; e sua participação no planejamento urbano. Vamos relatar aqui nossa vivência diária, as experiências inspiradoras e as iniciativas que veremos por Freiburg.

Antes de tudo porque Freiburg? A cidade tem uma longa tradição de proteção ao meio ambiente. Na década de 1970, um projeto de construção de usinas nucleares no entorno mobilizou os moradores, que fizeram três anos de resistência. Até lá apresentarem uma outra alternativa de fonte de energia que afastou o projeto de usinas. O envolvimento de moradores e professores da universidade foi tanta que eles seguiram mobilizados. E esse envolvimento se reflete até hoje, tornando Freibrug uma referência de cidade mais verde e humana.

Bairro Vauban – modelo de distrito sustentável

Começamos nossa jornada em Freiburg no bairro Vauban, um modelo de distrito residencial sustentável. Depois da Segunda Guerra Mundial, quartéis abandonados na região foram ocupados por artistas, estudantes e pessoas com baixa renda. Aos poucos foram transformando o entorno e na década de 1990 foi realizado junto com o poder público um planejamento urbano do bairro. Ele foi pensado para que tivesse baixo consumo de energia, pouca circulação de carro e ruas em que crianças, bicicletas e pedestres pudessem conviver de maneira harmônica.

Atualmente nas cidades de médio porte há cerca de 65 carros para cada 100 habitantes, em Freiburg esse número cai para 42 e em Vauban para 17. Os cerca de 5.500 moradores do bairro são incentivados a não ter carro. E para aqueles que têm, há um estacionamento na entrada do bairro, já que parar nas ruas não é permitido. As ruas são amplamente sinalizadas para que a velocidade dos carros não ultrapasse os 30 km/h.

Circulamos pelo Vauban com a companhia da Aiforia, uma empresa de consultoria, que nos mostrou os grünspange (áreas verdes), espaços de convívio ao ar livre com alguns recursos naturais e parquinhos que permitem a criança brincar livremente em contato com a natureza. São troncos de árvores, espaços com areia e cascalho; escorregadores e balanços. Mas cada grunspange é de um jeito, isso porque os moradores de cada área participaram da sua construção e seguem contribuindo com sua manutenção.

Além dessas áreas de convívio, há praças comunitárias onde ocorrem feiras, encontros e festas dos moradores. Vimos também pelas ruas do bairro códigos para que as crianças reconheçam a área em que estão, as cores das casas, de alguns mobiliários, por exemplo, são indicativos. Isso permite uma autonomia ainda maior das crianças que circulam por ali.

E com relação a segurança?, perguntamos. Uma resposta simples e animadora: “a ideia é manter o bairro vivo e com isso aumentar a sensação de segurança. O aspecto vivo (luz, loja, restaurante, pessoas) substitui o sistema de monitoramento e vigilância”, nos contou Andrea Burzacchini, fundador da Aiforia.

Com um planejamento básico e iniciativas de baixo custo, aliados a participação dos moradores, em conjunto com o poder público, Vauban nos mostra que é possível sim trazer mais natureza para as nossas vidas e para as nossas crianças.

Sítio de Aventura das crianças 

Ainda no bairro visitamos um Kinderabenteuerhof (site em alemão), sítio de aventura das crianças. Um espaço para que as crianças tenham experiências de atividades rurais e contato direto com a natureza. Lá elas podem ficar livremente entre galinhas, porcos e ovelhas. Ou participar das atividades desenvolvidas no local, que vão desde dar comida para os animais, até a produção de pão.

O parque faz parte de uma associação federal que dá apoio e suporte para o funcionamento de sítios de aventura pela Alemanha. Além de ser um espaço para crianças, de manhã há duas turmas de pré-escola no local. A “aula” é quase sempre do lado de fora, “uma educação sustentável só é possível pela experiência (fazer, cheirar, sentir) para assim poder criar marcas na memória e favorecer o aprendizado”, contou o diretor do sítio, Joachim Stockmaier. E os riscos em um ambiente natural e cheio de possibilidades? Para Joachim, eles são fundamentais, “aqueles que não experimentam riscos na infância terão uma dificuldade enorme de encarar riscos reais mais tarde”.

Além de receber crianças e famílias, o sítio também abre as portas para outras escolas. Segundo Stockmaier, no Plano de Estadual de Educação há uma diretriz que incentiva o trabalho das escolas em espaços que propiciam a experiência junto à natureza. Isso facilita a formação de parcerias entre escolas públicas municipais e os sítios de aventura.

O sítio que visitamos se preocupa também em incluir todos da comunidade, há um trabalho para garantir a inclusão de crianças com deficiência e aquelas recém chegadas na região. Com a política nacional de conceder asilo para imigrantes, o sítio passou a trazer esses novos moradores para o convívio social. “Não queremos servir só para uma parte da cidade, queremos oferecer o sítio para todos”, ressaltou Stockmaier.

Circulamos pelas casas de madeira, pelos gramados, andamos entre as galinhas e até encontramos um hotel para insetos. “Aqui é um espaço de respiro”, concluiu Stockmaier e foi isso que sentimos por lá.

Zusammen Gärtern – projeto de integração intercultural por meio da horticultura

“Você quer plantar seu próprio vegetal? Você quer conhecer pessoas? Você quer fazer jardinagem, trabalhar ou curtir com outras pessoas? Desde julho de 2016, nós estamos construindo uma comunidade intercultural e inclusiva nesse espaço: não importa de onde você vem, qual língua você fala, quantos anos você tem, se você tem uma deficiência ou não, se você tem conhecimento em jardinagem ou não: venha e se junte a nós! Aqui queremos trabalhar juntos e aprender uns com os outros, aproveite o jardim e se divirta!”

É com essa mensagem que o Zusammen Gärtern (site em alemão) recebe as pessoas de portas abertas, ou melhor, sem portas. A horta coletiva que não tem muro, nem portas, foi idealizada pelo proprietário do terreno que cedeu o espaço para que qualquer pessoa pudesse contribuir e desfrutar. Fomos recebidos pela cofundadora Johanna Dangel, que nos contou que além das hortas, há diferentes atividades para atrair os moradores, como festas, fogueiras e aulas. As pessoas podem contribuir para o local com doações voluntárias ou com 12 horas de trabalho anuais nas hortas.

E as crianças? “Elas são os grandes elos que conectam as famílias que frequentam aqui”, contou Johanna. No começo não havia uma planejamento próprio para elas, mas aos poucos as crianças foram surgindo espontaneamente e passaram a se envolver em tudo. Uma parceria com o sítio de aventura, que fica ao lado, tem levado cada vez mais crianças para a horta. Elas se mostraram um elemento fundamental no funcionamento do espaço, “elas ampliam os valores daqui nas famílias e se mostram orgulhosas de pertencer a este lugar”, nos disse Johanna.

Foi nesse ambiente acolhedor que encerramos o dia, com um jantar comunitário: legumes da horta cozidos na fogueira que fica bem no centro do terreno. Uma bela maneira de encerrar o primeiro dia de missão.

Diário de viagem – 2º dia


“Fazer algo para as crianças é fazer algo para todos”

DorisComeçamos nosso segundo dia de Missão Técnica aqui em Freiburg com a apresentação de Doris Bäumer, coordenadora da campanha estadual “Mehr Freiraumm für Kinder, ein Gewinn für alle”(site em alemão), traduzindo: Mais espaço livre para as crianças, um ganho para todos. Fomos de bicicleta até a Universidade de Freiburg onde Doris nos contou da campanha que acontece no estado de Nordrhein-Westphalen (NRW) desde 2015. O objetivo da iniciativa é mostrar para os municípios o desequilíbrio na circulação de pedestres com relação ao carro, e em seguida apresentar soluções para promover uma mobilidade segura em áreas de tráfego moderado e espaços livres para as crianças usando pouco recurso. Doris percebeu que essas mudanças têm efeitos positivos também para outros grupos, como os idosos.

A motivação para começar esse movimento foi a constatação de que as crianças passam hoje em dia mais tempo dentro de casa do que do lado de fora. Assim como, o uso de tecnologia vem diminuindo as habilidades motoras das crianças e contribuindo para o aumento da obesidade infantil. Outra motivação foi o grande tráfego de carros que havia na entrada e saída das escolas, por isso começaram a pensar em maneiras de atrair as famílias para percorrerem o caminho a pé ou de bicicleta, instalando brinquedos pelas calçadas e tornando mais divertido para as crianças. Nada como uma cidade amigável e com propostas lúdicas para as crianças para incentivá-las a circular e brincar livremente!

Atualmente, 22 cidades do Estado aderiram a campanha e já estão implementando medidas que contribuem para a circulação segura das crianças. Cada administração recebe apoio técnico para realizar essas mudanças e, principalmente, para promover uma articulação intersetorial entre as diferentes secretarias do município. Fazem parte das sugestões mapear os possíveis trajetos até as escolas para fazer “caminhos brincantes”, que incentivem as crianças a irem a pé. Outra proposta é oferecer de maneira ativa aos moradores ruas de lazer temporárias, espaços voltados para o brincar e fechadas para os carros, iniciativa semelhante às ruas de lazer, que existem em alguns municípios brasileiros.

Há cidades que gostaram tanto da ideia da campanha, que mudaram sua maneira de gerir o espaço como um todo. Em Mülheim, por exemplo, foi instituído um “plano diretor para o brincar”, já o município de Aachen estabeleceu como um dos pré-requisitos para novas construções o bem estar das crianças.

E o que as crianças têm a dizer sobre tudo isso? Tudo! O processo de elaboração do plano tem a participação das famílias e isso inclui as crianças também. Elas ajudam no reconhecimento dos aspectos negativos da cidade e ajudam na transformação desses ambientes. O envolvimento da criança é uma forma de considerar seu ponto de vista em relação à cidade e também funciona como uma maneira de educar para praticar cidadania. A participação de todas as secretarias também é importante para que os agentes públicos se sintam responsáveis pelo assunto e pelas mudanças a serem implantadas. Doris nos lembra que com apenas um toco de giz, uma criança pode mudar uma rua inteira, demarcando os trajetos e espaços de circulação, além de imprimir sua marca e vestígios pelos caminhos da cidade.

Doris garante que o sucesso da campanha nas cidades é devido principalmente a cooperação entre as secretarias e o envolvimento dos moradores. Desafio? Seguir transformando mais cidades com um custo baixo e que os planos não fiquem apenas no papel.

Sistema de mobilidade de Freiburg

Aproveitamos nossas bicicletas e demos uma volta para conhecer o sistema de mobilidade urbana da cidade, considerado sustentável e amigável para as crianças. Quem nos levou para o passeio foi o fundador da consultoria Aiforia, Andrea Burzacchini. Ele nos contou que a mobilidade urbana para ser sustentável não deve levar em conta apenas as fontes de energia do automóvel, que é preciso diversificar os meios de transporte, equilibrando os diferentes meios em um sistema modal, constituído por pedestres, carros, transporte público e bicicletas. E em Freiburg podemos dizer que houve muitas conquistas em relação ao estímulo ao uso da bicicleta.

Além de campanhas, incentivos e políticas públicas, observamos durante o nosso trajeto algumas mudanças na prática: redução de velocidade dos automóveis, ruas mais estreitas, poucas vagas para carros, barreiras para impedir a circulação de automóveis em certas áreas e no trânsito, a prioridade é sempre das bicicletas. Outro ponto importante é que não há nas ruas de Freiburg espaços delimitados para a bicicleta, como ciclovias, “se é a prioridade no trânsito, as bicicletas não podem ficar segregadas a uma faixa”, comentou Andreas.

Fomos visitar um espaço dedicado às crianças e suas bikes, que possui um circuito com sinalização de trânsito para que elas possam treinar suas pedaladas com segurança. As crianças maiores de 7 anos são incentivadas a realizarem esse treinamento para que possam circular pela cidade com maior autonomia. Administrada pelo município, a iniciativa faz parte de uma política nacional, que exige a implementação de espaços como este em todas as cidades da Alemanha. Assim, desde pequenas, as crianças são estimulados a terem a bicicleta como meio de transporte prioritário.

Voltamos para o centro da cidade margeando o rio Dreisam, e no meio do caminho nos deparamos com um balanço pendurado em uma ponte, um convite para parar e contemplar a natureza no meio da cidade.

Plano de ação Municipal para a Inclusão

À tarde nos reunimos na Prefeitura de Freiburg com Guido Willmann (site em alemão), coordenador de inclusão da cidade, e com Sarah Baumgart, delegada para questões de inclusão, eleita por um conselho participativo. Guido nos contou que em dezembro de 2006, a partir da Convenção da ONU sobre os direitos de pessoas com deficiência, foi aprovado um plano de ação nacional, que tem como principal objetivo tirar a questão das políticas para inclusão de um sistema de assistência social e levá-lo para um sistema de direitos iguais, considerando a autodeterminação das pessoas com deficiência.

Em 2013, a administração incluiu na sua gestão Sarah Baumgart, representante das pessoas com deficiência no município, contratada pelo governo, que dialoga livremente com as diversas instâncias no poder público, e ao mesmo tempo é uma referência para a sociedade civil na questão da inclusão. “As prioridades da minha atuação são para espaços públicos sem barreiras, moradias sem barreiras. E também para garantir ofertas de trabalhos qualificados, assim como áreas de lazer e cultura”, disse Sara. Para que tudo isso aconteça de maneira efetiva é fundamental o apoio da Prefeitura, completou Guido.

Com relação à educação, há diferentes modelos na Alemanha: escolas só para crianças com deficiência, sejam elas físicas ou intelectuais, escolas que recebem alunos com deficiência em salas de aulas e que contam com assistência de profissionais especializados; e escolas com classes inclusivas, que integram os diferentes objetivos de aprendizados nas aulas para todas as crianças. Eles nos contaram que não há uma política forte de inclusão para as escolas de ensino fundamental administradas pelo estado.

Apesar dos esforços encontram resistência para a educação inclusiva, alguns pais de alunos temem que o rendimento de seus filhos seja reduzido pela presença de crianças com deficiência. Muito dessa situação se deve ao sistema educacional da Alemanha, que ainda coloca o desempenho curricular do aluno como prioritário em detrimento de outras habilidades sócio-emocionais (veja aqui a pesquisa do Alana e da ABT Associates que mostra “Os benefícios da educação inclusiva para estudantes com e sem deficiência”). Por outro lado, as pré-escolas em Freiburg procuram se aproximar dos alunos com deficiência e possuem algumas experiências mais exitosas no âmbito da educação infantil. O objetivo atual é que em cada bairro exista pelo menos uma escola capaz de receber um aluno com deficiência.

Durante a nossa conversa percebemos que as experiências brasileiras de inclusão, podem contribuir com a discussão em muitos sentidos.

Conselho de Crianças

Seguimos para o parque estadual (Stadgarten) para encontrar Josephine Hebling, do Conselho de Crianças e Jovens da Kinderhifswerkes. Ela é ex-integrante do Conselho das Crianças”, um grêmio oficial formado por crianças eleitas na cidade, que interage regularmente com a prefeitura e a câmara local. Sua atuação começou na 6ª série, depois de participar de uma “Oficina dos Sonhos” para pensar nas melhorias que ela gostaria para sua cidade. Foi a partir dessa experiência que o Conselho foi montado.

De lá pra cá, muitas conquistas! “Cavamos nosso espaço e fomos ganhando respeito”, contou Josephine. Ela nos falou animada da reunião em que participou na ONU para apresentar ao lado de outras crianças sugestões de soluções para diferentes temas, como por exemplo, o bullying nas escolas.

A experiência deu tão certo que eles montaram um conselho estadual, reunindo crianças das diferentes cidades. O sonho de Josephine? Um conselho nacional para que todas as crianças da Alemanha possam ser representadas.

Mas nem tudo são flores, “muitos políticos acham que as crianças custam mais do que contribuem”, disse Josephine, eles não entendem que “quando um adulto leva a sério o que uma criança tem pra falar, vai olhar com outros olhos o mundo”.

Diário de viagem – 3º dia


“Vamos em busca das pegadas do brincar?”

Imagine uma cidade em que as crianças não frequentam mais as ruas, a rotina infantil é organizada principalmente em espaços internos, o brincar ocorre apenas de maneira dirigida e o tempos de lazer é preenchido com eletrônicos. O que fazer para trazer as crianças de volta à cidade? Foi esse questionamento que levou a prefeitura de Freiburg a encomendar ao Instituto de Ciência Social Aplicada (FIFAs) (site em alemão), da Universidade local, uma pesquisa para identificar os espaços de ação da criança pela cidade, as distâncias percorridas de casa até um local para brincar e a qualidade desses ambientes. Saíram então, em busca das “pegadas do brincar” que as crianças um dia deixaram pela cidade.

IMG_0022Christine Kimpel, pesquisadora do FIFAs, nos contou que a pesquisa envolveu 4 mil famílias com crianças e combinou três tipos de avaliações: uma quantitativa, em que funcionários da Prefeitura coletaram dados sobre os entornos dessas casas (quantos carros eles tinham, como era o jardim da casa, o parque mais próximo, etc.); e duas qualitativas, uma com os pais e as crianças para saber suas percepções sobre os espaços de brincar; e outra com algumas famílias, que realizaram uma observação diária sobre o uso do tempo feita pelos filhos (quanto tempo eles brincam, ficam na escola, participam de atividades estruturas, etc.).

Entre os resultados, ficou a percepção que o modo como se vive a infância tem um efeito espacial sobre a cidade. Durante a pesquisa, procurou-se estabelecer um olhar não apenas para os lugares especificamente construídos para as crianças, mas para toda a geografia do brincar percorrida por elas, tendo em vista a preservação desses espaços como lugares importantes para acolher a infância na cidade. Portanto, no projeto seria fundamental considerar como espaços de brincar pontos de ônibus, terrenos baldios e os diferentes trajetos percorridos pelas ruas tornando o espaço da cidade mais atrativo para as crianças. Além disso, esses espaços deveriam ser acessíveis e que atraíssem também os adultos; ter segurança, mas sem eliminar os riscos (pois não existe mundo sem risco!); não poderiam ser monótonos; e deveriam garantir oportunidades de interação. Com tudo isso em mente estava na hora de agir!

Precisamos de uma cidade inteira brincante

E foi na implementação desse projeto da Prefeitura de Freiburg que entra na história a Bagage (site em alemão), uma oficina de ideias pedagógicas que reúne uma equipe interdisciplinar com arquitetos, pedagogos e sociólogos. A associação planeja e constrói espaços para o brincar livre pela cidade de Freiburg. Visitamos o escritório deles, que fica em uma antiga fábrica, que foi ocupada na década de 1970, durante o período de mobilização contras a instalação das usinas nucleares. Hoje o espaço se chama Fabrik e reúne outras organizações, comércios e uma pré-escola. Na área externa da Fabrik já nos deparamos com pequenas intervenções da Bagage, uma cobra de argila no estacionamento das bicicletas, uma porta com rosto, um caracol feito de mosaico, areia, pedra e água, tudo à disposição das crianças que circulam por lá e que nos apresentam pistas de como pode ser a composição de uma cidade lúdica.

A Bagage também é procurada por escolas para repensar os espaços ao ar livre. A equipe avalia o que já existe e se possível trazem apenas elementos naturais ao ambiente. O plano começa com uma conversa dos pedagogos da Bagage com a equipe escolar e com as crianças. Com a ideia pronta, todos participam da implementação.

Udo Lange, diretor da Bagage, nos mostrou os diferentes projetos que eles já realizaram, “a cidade serve para a aventura. A gente não precisa só de parques, precisamos de uma cidade inteira brincante, esse é o futuro”, comentou. A associação propõe ideias criativas, que misturam mobiliários e elementos da natureza, o plantio de arbustos, a preservação dos relevos acidentados, um desvio do rio, são algumas das iniciativas. Udo procura priorizar sempre os espaços naturalizados, se trata de uma arquitetura viva, que muda ao longo do tempo, afinal “o paraíso não é mobiliado”. Mas quando há o pedido por equipamentos, eles optam por uma linguagem com formas e cores que trazem uma perspectiva mais lúdica.

“A chance para uma infância feliz depende da qualidade dos espaços. E não precisam ser lugares muito planejados, as crianças podem se apropriar deles e transformá-los”, sugere Udo. Deixar restos de entulhos em praças, por exemplo, é revelador. “As crianças precisam de coisas para brincar e não de brinquedos prontos”.

Saímos da Fabrik e fomos percorrer a cidade a procura de algumas praças. No meio do caminho, Udo nos mostrou um parquinho vazio e com equipamentos regulares. “As construtoras criam esses ambientes como uma contrapartida para a cidade, mas de que adianta fazer algo onde as crianças não vão?”, questionou. Chegamos ao destino final, uma praça grande onde há 20 anos foi implementado um projeto com a participação das crianças. Udo nos contou que no meio da praça havia um buraco, resultado da explosão de uma bomba da Segunda Guerra Mundial, algo que foi mantido no projeto original da praça. Infelizmente, recentemente a Prefeitura tirou o buraco e parte da vegetação, alegando falta de segurança.

Apesar de todo o apoio do município, há ainda alguns entraves quando se trata de segurança. A participação articulada das diferentes secretarias municipais foi fundamental para implementar as mudanças nas praças e espaços da cidade, mas muitas regras de segurança acabaram desconfigurando algumas propostas.

Mais tarde visitamos uma pré-escola no bairro de Vauban que também recebeu a consultoria da Bagage. O diretor da escola, Dominique, nos disse que as crianças passam mais tempo do lado de fora e livres para criar. E de preferência os materiais usados na natureza, são materiais da natureza. De um lado da escola há um espaço naturalizado, com lama, água, pequenos esconderijos feitos de galhos. Do outro, mobiliários também planejados pela Bagage. Udo indagou: adivinha onde as crianças preferem ficar? A resposta: no espaço natural.

Conhecer a atuação do Udo e da Bagage nos mostrou que seu trabalho, do começo ao fim, está comprometido em garantir uma cidade acolhedora e amigável para crianças. Permitindo que elas se apropriem desde de cedo dos espaços públicos. O trabalho da Bagage respeita e, acima de tudo, honra a infância.

The Playground Project

IMG_0060Durante o dia também conversamos com Gabriela Burkhalter, a idealizadora do Playground Project, uma exposição itinerante e projeto de pesquisa sobre a história dos playground no mundo. Grabriela nos trouxe uma perspectiva do brincar através da arte, e nos mostrou algumas iniciativas de artistas, designer e coletivos que criaram mobiliários para as crianças. Em sua pesquisa sobre a trajetória dos playgrounds ao longo do tempo, Gabriela resgata a origem dos mobiliários mais participativos e criativos e também daqueles mais padronizados, modelos preocupados principalmente com a segurança. Entretanto na opinião da pesquisadora, os padronizados, como escorregador, trepa-trepa, gira-gira, revelam-se menos interessantes e mais monótonos às crianças.

A ideia da exposição surgiu quando ela e o marido perceberam que não havia um diálogo dos museus com a cidade, construíram então um playgroud na área externa do museu Carnegie, em Pittsburg, nos Estados Unidos, onde seu marido era curador. E foi um sucesso! Em seguida montaram no interior do prédio uma pequena exibição sobre as histórias dos playgrounds. E hoje ela percorre diferentes países com sua exposição, nos fazendo refletir sobre a participação da arte no brincar das crianças.

Diário de viagem – 4º dia


“As crianças não desrespeitam o próprio medo”

O dia começou chuvoso, mas seguimos de manhã para a Waldhaus (site em alemão), a Casa da Floresta, um centro de convivência na entrada da Floresta Negra, que fica na cidade de Freiburg. Mantido por uma fundação, o espaço recebe escolas, crianças e moradores. Nos abrigamos lá enquanto esperávamos nossa guia do dia, Brigitta Blinkert, educadora que atua em escolas na floresta.

Saímos em direção da mata e um pouco a frente começamos a ouvir sons de crianças, andamos mais um pouco e chegamos em duas cabanas. O grupo fazia parte do programa de férias da Casa da Floresta. A chuva? Não era um problema, alguns tentavam fazer fogo com faísca, outros queimavam madeira, um grupo desenhava e alguns corriam por ali. O educador nos levou para mostrar o sofá na floresta, que a turma fez no começo da semana e agora com o fim do programa era o momento de desfazer. Galhos formavam um círculo e aos poucos as crianças foram levando um por um de volta para a floresta. Semana que vem um novo grupo chega e um novo sofá será feito.

Em Freiburg, há cerca de 30 escolas na floresta, a maioria começou com o movimento dos pais. “Esta é a melhor forma de uma criança se desenvolver, elas estão em movimento o tempo todo e vivenciam a vida real no meio da floresta”, disse Brigitta. A “rotina” na floresta começa de manhã com um círculo para simbolizar o início do dia e em seguida elas ficam livres para brincar.

“Estou olhando todos o tempo todo, mas procuro ficar invisível de uma maneira em que eles possam me acessar se precisarem”, disse Brigitta. Os riscos existem, mas há um manejo para evitar que as crianças corram perigo. Uma maneira é estabelecer combinados com elas, como por exemplo, delimitar uma área para circularem, não correr com galhos na mão, e se quiserem cortar alguma coisa, fazer isso sentada. Mas Brigitta garante, “as crianças não fazem o que sentem medo, porque elas não desrespeitam o próprio medo”.

Na casa da Floresta, Philipp, educador de uma das cabanas, contou que não há programação, “com seis anos mais ou menos é tanta criatividade que não faz sentido propor coisas. A ideia é que as crianças venham e descubram o mundo por meio da floresta. Se estão muito empenhadas em fazer alguma coisa, nos engajamos junto e apoiamos”. Para ele, a grande vantagem das escolas na floresta é que quando a criança vai para uma sala de aula aprender sobre a natureza, ele vai poder se relacionar com o coração também, porque ela sabe o que está sendo falando, ela já viveu isso na pele.

Klaus Goldmann, o educador da outra cabana, disse emocionado que trabalha há 20 anos na pedagogia da natureza e só agora viu seu trabalho ser reconhecido. Um novo plano pedagógico estadual incorporou pela primeira uma diretriz que fala que é necessário levar as crianças para floresta. “Isso é um grande apoio pra gente, não precisamos mais justificar porque levamos as crianças para a natureza”.

Inspirados por esses educadores e pelas crianças, seguimos para Wohnhalde, um jardim de infância na floresta. Conhecemos Jana e Kerstin, que nos contaram que o espaço começou pequeno e aos poucos, junto com os pais, foi ampliado para garantir um ambiente acolhedor e ao mesmo tempo livre. “Começamos com crianças de 1 a 3 anos e quatro mulheres com muita vontade de passar o tempo ao ar livre. Nas primeiras turmas tínhamos um pouco de receio com relação a segurança, mas um dia um menino desceu uma colina e caiu num poço de lama. Ficamos assustadas, mas uma das mulheres que estava com a gente e já tinha experiência na floresta olhou a cena e disse: olha que incrível venham todos! Entendemos ali que se as crianças não voltarem para casa sujas é porque algo deu errado, afinal somos uma escola na floresta”, lembrou Jana.

Encerramos a primeira parte do dia encantados com as possibilidades que o contato com a natureza proporciona. Conhecer pessoas apaixonadas e engajadas no que fazem nos trouxe muita inspiração. A chuva? A essa altura, ali na floresta, ela era uma aliada.

A natureza precisa ser sentida

Uma pergunta que nos inquietava era: quem são esses educadores da natureza? Como eles se preparam para estar com as crianças? A resposta veio à tarde no encontro com Sabinne Bammert da Natuschule (site em alemão), uma das funcionárias da Escola da Natureza, um centro que realiza desde 1988 formações em educação ambiental e pedagogia da natureza.

“O principal é a experiência e o entusiasmo com que eles vivenciam o curso, é assim que são sensibilizados”, destacou Sabinne. A vivência na natureza, para ela, é enriquecedora para a vida profissional de quem participa, mas também para suas vidas pessoais.

O foco do curso deve ser sempre a prática, “aprender sobre as árvores que existem dentro de uma sala de aula não aproxima as pessoas da natureza, é preciso ir pra fora, ver, sentir para que aquilo que está sendo ensinado faça sentido. A experiência com a natureza precisa ser sentida com a cabeça, com o coração, e com as mãos”.

E foi isso que fizemos em seguida, caminhamos até o parque da cidade e vivenciamos com o corpo e a mente algumas das atividades dos cursos da Escola. Colhemos elementos naturais do parque, contemplamos os sons que nos cercavam, andamos com um espelho para ver a natureza com outra perspectiva.

Em mais um dia de Missão Técnica conhecemos pessoas encantadas com a natureza e comprometidas em promover esse encantamento. Para celebrar o dia, o Sol apareceu para nos lembrar que a natureza está com a gente sempre.

Diário de viagem – 5º dia

Detetives da cidade

Depois de uma semana intensa de experiências e densa de conhecimento, tivemos uma manhã livre. À tarde voltamos para a programação da Missão Técnica e caminhamos até uma praça para conhecer uma iniciativa que tem feito diferença em alguns espaços da cidade: Stadteildetektive, em tradução livre, os Detetives do Bairro.

O projeto surgiu da pesquisa realizada pelo Instituto de Ciência Social Aplicada (FIFAs) em 1993, aquele estudo que a Christine Kimpel nos apresentou no 3º dia de Missão, que procurou identificar os espaços de ação da criança pela cidade. Dez anos depois da realização da pesquisa, um grupo de pessoas se questionou: o que mudou? O que precisa melhorar? Então concluíram que para poderem avaliar o que precisaria melhorar na cidade, deveriam perguntar aos maiores interessados: as crianças.

A partir daí surgiu a associação Kind und Unwelt (Associação Criança e Meio-Ambiente, em tradução livre) e em 2004 criaram os Detetives do Bairro, para que as próprias crianças expressassem como está o entorno delas. Assim, em parceria com escolas, os voluntários, que fazem parte da iniciativa, desenvolveram um questionário para que as crianças observassem ao longo de seus trajetos o que estava bom e as barreiras no caminho ou lugares que pudessem ser perigosos do ponto de vista delas.

Entre as ferramentas para coleta de informações das crianças, foram utilizados mapas dos trajetos que as crianças fazem no bairro, onde elas qualificaram os espaços entre bom, médio ou regular. No final, todos esses lugares avaliados pelas crianças foram reunidos em um único mapa. Os resultados dos detetives foram apresentados para diferentes atores da cidade, moradores, polícia, secretaria de trânsito, e para as próprias crianças. Com os resultados em mãos, os Detetives do Bairro conseguiram sensibilizar a prefeitura e aos poucos algumas coisas foram mudando, como melhorias em praças e sinalização de trânsito nas ruas próximas às escolas. O projeto já foi realizado em oito bairros da cidade, a ideia é que isso continue pela cidade toda.

Para conhecermos alguns desses lugares mapeados, Reinhild Schepers, representante da Kind and Unwelt, nos levou em um “tour”, caminhamos primeiro por uma praça em Freiburg, que as crianças do bairro avaliaram como um lugar não amigável, pela falta de iluminação e outros usos que atrapalhavam o brincar. Fomos então para uma outra praça, que recebeu intervenções depois da avaliação das crianças. E as crianças estavam lá!

Vistamos também um espaço de convivência para adolescentes que foi criado a partir da mobilização de moradores da região, o prédio que é da prefeitura abriga também uma biblioteca. Na porta, encontramos um grupo de crianças que estava dando o acabamento final nos seus carrinhos para uma corrida anual que ocorre tradicionalmente no bairro. Os “automóveis” são feitos pelas próprias crianças com auxílio dos pais, o segredo é um freio bem feito, nos contaram.

O começo do começo

Ao longo dessa semana, vimos aqui em Freiburg diferentes aspectos e articulações para construir uma cidade amigável para as crianças. Conversamos com educadores, arquitetos, servidores públicos, moradores, especialistas em mobilidade urbana, secretaria de inclusão e acessibilidade, que nos mostraram que para trilhar um caminho para um novo conceito de cidade é fundamental o diálogo e o respeito à infância e valorizar a presença da natureza.

Em Freiburg, as crianças vivem mais presentes nos espaços públicos, brincam nas ruas, praças e parques, se locomovem em bicicletas, são ouvidas em suas necessidades, relacionam-se com a natureza no dia a dia e são consideradas no planejamento da cidade. E tudo isso acontece agora, depois de muitos anos de mobilização e participação dos diferentes atores da sociedade, que continuam trabalhando para tornar a cidade mais amigável para a criança.

Nossa delegação começa agora uma nova viagem, para pensar em pontes, redes e ações que essas experiências nos mobilizaram e o desafio de elaborar iniciativas que façam sentido no contexto brasileiro. Pensar em uma cidade amigável a criança é planejar ações que garantam a sua presença no espaço público. E você, como pode contribuir para desemparedar as crianças na sua cidade?

Esperamos que a Missão Técnica tenha sensibilizado também aqueles que acompanharam nosso diário. Em breve divulgaremos em nosso site e redes os frutos dessa experiência enriquecedora.

Até a próxima!