“A natureza sempre nos ampara”

Menino e bichinho

21 maio “A natureza sempre nos ampara”

Brincante e educador, Antônio Roque Juaquim explica por que brincar com a natureza é essencial para desenvolver seres humanos plenos

Antônio Roque Juaquim, ou Roquinho, como é mais conhecido, se formou advogado mas é brincante. Existe essa profissão? – perguntarão alguns. Pois sim, um brincante é alguém que observa o brincar, que fomenta brincadeiras, que inventaria o vasto cardápio de possibilidades existentes, que educa. Alguém que, no fundo, leva brincadeira muito a sério. Mas só no fundo!

DSCN0072-2“Fui um menino com uma infância especial, criado numa cidade do interior de Minas. Uma infância vivida com muita verdade. Isso deixou em mim uma marca profunda”, conta Roquinho que, enquanto cursava Direito, voltava para sua cidade natal para encontrar as crianças e brincar com elas. “Em determinado momento, o Direito virou um problema, nem tanto pela formação, que era boa, mas porque fui vendo que a prática seria insuportável para mim.”

Roquinho foi então trabalhar em um centro de referência para crianças e adolescentes, dentro de um programa da Secretaria da Cultura de Belo Horizonte. E não parou mais. Ao longo dos últimos 20 anos, desenvolveu práticas e reflexões acerca do brincar como traço elementar da cultura e da identidade. “Hoje tenho uma empresa, a Carretel, com uma sede imaginária, que acolhe as ações que faço, as experiências que realizo, como uma casa. Promovo encontros para brincar, encontros de formação e outras experiências que procuram consolidar vínculos comunitários, sempre por meio da observação e seguindo os princípios da cultura da infância”, conta. Ele acredita que brincar é essencial para a plenitude do desenvolvimento humano. Algo muito sério – mesmo numa casa imaginária.

Quais são os princípios da Cultura da Infância?

Trata-se de compreender o brincar como uma cultura, como traço de identidade de um povo, e como atividade atemporal, universal posta sobre gestos singelos que o corpo da criança cumpre quando brinca. É entender o que as crianças nos dizem de si e de seu tempo com a sua linguagem, que é o brincar. Entender o brincar também como uma pedagogia, ou seja, como algo que inaugura a nossa compreensão, e que é essencial para a nossa completude como seres humanos.

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Você acha que existe uma infância única? Ou são várias as infâncias, dependendo de que tempo, que lugar, que condições a criança habita?

Olha, o que forma nossa identidade, o que nos forja, é o contato com o nosso meio. Então, é claro que há uma enorme diversidade de infâncias, que as infâncias refletem os contextos nos quais as crianças estão inseridas. Contudo, essas infâncias estão também ligadas por interesses comuns, e toda criança, em contextos diversos, como que atendendo a um impulso no sentido da vida, compreende o brincar como um caminho natural. Assim como uma tartaruga que nasce vai em direção ao mar, ou a planta busca o sol, as crianças de todo o mundo, em todos os tempos, buscam os movimentos contidos no brincar. É por meio deles que elas experimentam o mundo.

Existe uma diferença entre brincar com elementos da natureza ou brincar com um brinquedo comprado, mais estruturado?

Brincar NA natureza e COM a natureza está para a criança como o mar está para a tartaruga! As crianças querem experimentar e apreender a vida em sua dimensão total, e a natureza é a casa que guarda a resposta mais profunda a esse anseio. A natureza é infinitamente diversa e essa dimensão de infinitude reverbera em nós. A natureza tem flores, frutos, sementes, cascas… sempre disponíveis para virar outras coisas. Ela nos ampara quando o desejo é brincar, funciona como um colo. A natureza guarda o mistério, o secreto, as texturas, a vastidão, as cores, a vida, o impalpável, o imponderável… Afirmar isso em nós, por meio de uma experiência íntima com a natureza, nos permitirá experimentar a humanidade em sua dimensão maior. Acredito que não há infância que dispense essa experiência de se formar na natureza, de transformar a natureza em brinquedo e assim formar-se junto com ela. Tudo o que você precisa é dar liberdade. As crianças, naturalmente, irão ao encontro da natureza.

46516312_2711302785762213_7310146148675616768_n - Versao 2Mas hoje, nas cidades, temos visto infâncias cada vez mais emparedadas, mais tecnológicas, com menos experiências como essas…

Temos as crianças como aliadas…  precisamos escutá-las. O que elas nos dizem é que sempre que acenarmos com possibilidades de brincar, e brincar com e em meio à natureza, elas estarão prontas a vir conosco. Precisamos é escutá-las. Temos de ouvir esse chamado. E promover ações para reverter uma realidade que já nos incomoda. Isso precisa nos incomodar mais, virar pauta, virar política pública, para que as cidades sejam diferentes. Precisamos considerar os parâmetros, as bases usadas para construir nossas cidades. Pensar a quem temos entregado a responsabilidade pública de construí-las. E atuar para que governantes mais sensíveis às causas da infância cheguem onde precisam estar. As crianças estão disponíveis e se você oferecer natureza elas irão. A gente precisa também pensar na criança que a gente foi, lembrar dela, acolher o que ela nos inspira e oferecer às crianças hoje o que nós tivemos e que elas não estão alcançando. O menino que eu fui me guia em vários momentos. E isso implica em uma pequena revolução: é preciso ocupar praças, abrir portas, mudar escolas. Tem muita coisa sendo feita. Não sei se Belo Horizonte, onde moro, é especial nisso, mas eu vejo espaços, lugares com árvores. Eles estão aí, disponíveis. Claro que existem problemas a serem enfrentados, mas precisamos ocupar e retomar os espaços que temos. E, em última instância, rever o nosso prédio, a escola dos nossos filhos e pensar em como acolher a natureza da infância nesses lugares.

A tecnologia acena com mais conexão e conectividade. E o nosso planeta clama por mudanças para sobreviver. Afinal: estamos mesmo mais conectados e mais ativos? Ou estamos sozinhos com uma ilusão de conexão?

A enorme diversidade do ser humano exige uma diversidade externa também. Não há um só caminho, uma só forma. A tecnologia não é ruim em si, ela é maravilhosa, mas não pode ser a nossa única experiência formadora! Precisamos de infinitas respostas para as possibilidades infinitas que somos. Se virar a única, sofreremos várias faltas. A criança, em sua cultura, nos sugere conhecer por intimidade, com alegria, e com o corpo em movimento. Para você ter cuidado com o meio ambiente, com a natureza, não basta aprender isso em sala de aula, não dá para olhar a natureza a uma distância segura e pretender criar uma conexão. É preciso se embrenhar nela, ser e entender a natureza para poder agir. Quando uma criança transforma a natureza em brinquedo, naquilo que ela ama, ela acrescenta em si razões para amar e cuidar da natureza. Formar uma criança para o cuidado com a natureza tendo como suporte só cimento e tecnologia é uma loucura. Não adianta fornecer informações apenas para a cabeça: a natureza precisa ser vivida para ser defendida. E brincar é essencialmente uma cultura do encontro, por isso ela nos é essencial: ela cria laços. É urgente oferecer às crianças oportunidades de brincar na natureza.

P1370853Qual é o risco de uma infância não brincada?

É preciso reconhecer na infância uma força incrível, que a gente deveria perpetuar em nós, adultos. Porque mesmo em situações absolutamente adversas, a criança dá jeito de brincar, de transformar o que ali existe em brincadeira e brinquedo, e isso é de uma coragem muito grande. Mas, ainda que elas consigam em parte preservar essa essência, e brincar, os riscos de uma infância não respeitada, não brincada, são muito grandes. Vemos hoje crianças passando para a adolescência sem tônus, sem força muscular, com corpos que não se moveram o suficiente, que estão domados. E, assim como essa, há outras inúmeras consequências. Mas há também esperança. Ouvi de um educador em um encontro, recentemente, que a infância dele tinha sido duríssima, com um pai muito ruim, trabalhando demais. Todo dia, após o trabalho, a comunidade dele ia para o rio, se banhar, brincar. Mas o pai dele dizia: “Você não entra”. Ele tinha a lembrança de se sentar à beira d´água, se esticando o mais que podia, ficando muito perto mas sem tocar a água. E daquela vontade de querer entrar e não poder. Então, ele disse que tinha decidido virar educador porque não queria que nenhuma criança mais vivesse isso: a impossibilidade de experimentar o que seu corpo pede. Aquela infância ruim o fez ser o que ele é hoje. O ser humano é mesmo incrível: a gente acha caminho.

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