Bebês e natureza: um relacionamento para toda a vida

As mãos de uma criança brincam com massa de barro. Ao seu redor há elementos como folhas secas e vasos de plantas.

01 fev Bebês e natureza: um relacionamento para toda a vida

Como aproximar os bebês da natureza, dentro de casa? Que possibilidades podemos proporcionar usando elementos naturais?

As primeiras experiências com a natureza podem começar em casa (principalmente em tempos de Pandemia), e se expandir para espaços ao ar livre. O importante é não deixar de manter esse contato. É possível criar vivências simples e essenciais para o desenvolvimento infantil – motor, sensorial, emocional, cognitivo e social.

Para a seleção dos materiais, faça escolhas considerando as ações do bebê: se leva os objetos à boca com frequência, se prefere manipulá-los com as mãos, se busca recipientes e cestas para colocar os objetos, dentre outras possibilidades. Na preparação do ambiente, é necessário pensar em diferentes perspectivas (do ponto de vista do bebê) dependendo do momento do desenvolvimento motor em que ele se encontra: permanece deitado no chão? Já senta, engatinha ou anda? Conforme oferecemos as experiências e observamos o bebê, essa organização fica mais assertiva.

Criança mexe, com uma madeira, a "sopá de pedras" em um grande recipiente de alumínio. Uma organização intencional serve para garantir que o bebê tenha liberdade de movimentos e brinque por iniciativa própria, sem a necessidade de o adulto ficar com o bebê no colo ou servindo de apoio. O ideal é que o bebê fique na postura que ele consegue manter por conta própria e esteja confortável para explorar. Um princípio para que posa se colocar com certa autonomia, liberdade e protagonismo.

O adulto, além de organizar o ambiente com materiais naturais, permanece junto, participa, interage, mas não define como serão as explorações. Apenas observa como a criança se relaciona com os elementos, quais são suas reações e expressões, que tipo de ação e pesquisa ela faz, o que provoca o contato com determinado material e o que desperta mais interesse. Assim, pode repetir as explorações em outros dias, trocando ou acrescentando materiais.

O bebê conhece o mundo com o corpo, por isso, é comum que leve à boca os materiais e experimente, lembre-se que a natureza não é sujeira, podemos intervir nesses momentos se houver risco, mas, caso contrário, faz parte da exploração provar areia, pedra, terra, folha, graveto ou mesmo outros materiais presentes na proposta.

É importante que a natureza seja fonte de descobertas, criação, exploração e construção de uma relação de respeito, amor, admiração e conexão. Criar um ambiente com mais natureza educa, enriquece essa relação com o entorno, com os outros e consigo mesmo. Observe a riqueza de materialidades, sensorialidades e plasticidade dos materiais naturais que oferece, e como eles se transformam no que a criança quiser (um graveto vira uma pessoa, uma colher, etc).

Além de oferecer materiais, outra possibilidade é chamar a atenção para a vida! Faça comedouros para os passarinhos se aproximarem, tenha uma composteira, uma pequena horta…  Bebês gostam de observar borboletas, joaninhas, lagartas pequeninas, formigas, minhocas. Podem participar do cuidado com as plantas, regá-las, vê-las crescer, florir. Se tiver um animal de estimação, envolva o bebê nos cuidados e incentive a relação entre eles. 

A própria alimentação traz também uma relação intima com a natureza: deixe os bebês comerem com as mãos! Sentir, tocar, cheirar, amassar, observar os alimentos. A cozinha é um território de afetos, de memórias e cheiros. 

Se tiver uma varanda, quintal ou um espaço para colocar as mãos na terra, fazer um barro, uma lama, brincar com areia e algumas bacias são atividades possíveis. Se puder, ofereça argila, há de diferentes cores em casas que vendem plantas ou artesanato, mas não aquelas de papelaria (industrializadas). Também é possível obter argila em pó e misturar com água.

Tomar sol bem cedinho ou no fim da tarde é outro modo de incentivar esse contato. E que tal aproveitar um papel, ou mesmo o chão, e desenhar com carvão? Ou ler um livro à luz de velas, brincar com as sombras. Escutar o som das árvores, dos pássaros, da água. Amassar folhas, brincar de vê-las planar no ar… Convide o bebê a cheirar uma folha de hortelã, tomar um chá e passar a mão em uma flor, ou uma folha peluda, como de boldo. 

Descrição da imagem: pés de um bebê no chão molhado.Brinque com água! Todo bebê gosta e não precisa ser muita, pode ser com potinhos, banho de regador, recipientes de diversos tamanhos. Pode-se variar a temperatura, oferecer esponjas (que sugam a água), spray, incluir folhas e flores, recolher água da chuva e até brincar com gelo nos dias quentes.  Eles adoram fazer misturas e derramar!

Não é necessário que o adulto coloque as mãos ou os pés do bebê nos materiais. Se o bebê fica no chão, de barriga para cima e rola, deixe o material ao seu redor para que o alcance com autonomia; se ele já se mantém sentado sozinho, prepare cestas e recipientes para deixar próximos ao seu corpo; se engatinha e anda, pense no que o espaço possibilita e delimite onde as experiências vão acontecer.

Podemos considerar essas propostas e também oferecer materiais do cotidiano que trazem na sua essência a natureza: colher de pau ou de bambu, cestas de palha, bucha vegetal, tigelas de vidro grosso ou de alumínio, pincel com pelos, pedras de jardim (seixos), caxixi, casca de coco, vasinho de cerâmica, penas, tecidos, sementes e tantas outras opções. É possível aproveitar algumas cascas e sementes de alimentos, colocando para secar. O que importa é garantir a variedade de experiências sensoriais.

Os bebês precisam dessas vivências com menos plásticos e mais presença. Diversas aprendizagens estão envolvidas nesse brincar. O contato com a natureza é tão potente que não precisamos ficar o tempo todo ensinando as cores, as texturas, os cheiros, os sons ou o que pode ser feito com determinado objeto. Basta experimentar, ao seu tempo, uma vivência de cada vez.

Foto da pedagoga Marcela Chanan

 

Marcela Chanan

Pedagoga, arte educadora, especialista em educação de 0 a 3 anos, formadora de professores, atua há 15 anos na área da Educação. É Professora de Educação Infantil da Prefeitura Municipal de SP e idealizadora do Blog Cultura Infantil.

* A opinião retratada no texto não reflete necessariamente do programa Criança e Natureza