Casas de portas abertas: crianças descobrem o prazer de brincar na rua

Crédito da foto: Paula Mendonça

02 fev Casas de portas abertas: crianças descobrem o prazer de brincar na rua

Educadora paulista propõe ação que resgata brincadeiras de rua para que este espaço, visto por muitos como sinônimo de perigo, possa se tornar um lugar de boas lembranças da infância

Por Mariana Sgarioni

Já faz tempo que as ruas dos grandes centros urbanos não são lugares para crianças brincarem. Com medo da violência e do trânsito, moradores estão subindo muros, investindo em playgrounds cercados, aumentando a vigilância e se fechando dentro de casa. As ruas são vistas como perigosas para adultos e crianças. Na contramão desta tendência, a educadora Paula Mendonça, de 37 anos, resolveu abrir portas e janelas de sua casa e chamar as pessoas para ocupar justamente o que elas mais temem: o meio da rua.

Moradora do bairro do Butantã, na zona oeste de São Paulo, a mãe de Nina, 8, e Luana, 5, começou a se incomodar com os rumores de uma onda de assaltos pela vizinhança. “A ideia dos vizinhos era a de aumentar a segurança e se trancar em casa. As crianças estavam assustadas, minhas filhas não queriam sair mais. Na hora, pensei: que lembrança é esta que elas vão guardar da infância?”. Paula chamou então a associação de moradores (AMAPAR – Associação dos Moradores Amigos do  Parque da Previdência) e propôs fechar, durante um domingo, a rua de sua casa para brincadeiras e piqueniques. Para sua surpresa, a adesão foi total e imediata. Os vizinhos mais idosos se lembraram de como, no passado, era divertida a vida das crianças brincando nas ruas. E assim nasceu o movimento “Já Para a Rua!” – um contraponto à célebre frase materna “já pra casa!” – que fecha a rua Francisco Perroti, no Butantã, um domingo a cada dois meses, das 10h às 13h.

Crédito da foto: Paulo Junqueira
Crédito da foto: Paulo Junqueira
Crédito da foto: Paulo Junqueira
Crédito da foto: Paulo Junqueira
Crédito da foto: Paulo Junqueira
Crédito da foto: Paulo Junqueira

Segundo Paula, os adultos se divertem tanto quanto as crianças, pois resgatam brincadeiras há muito tempo esquecidas. “O jogo de taco, por exemplo, só dá para jogar na rua. É uma farra quando os pais resolvem ensinar para as crianças. Todo mundo brinca!”, diz.

A seguir, a educadora conta como uma ideia tão simples vem ajudando a mudar  a rotina, o olhar, e as relações de todo o bairro.

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Por que as crianças devem brincar na rua?

É preciso olhar para as crianças dos grandes centros urbanos e pensar qual o espaço que elas ocupam. Temos que aproveitar as áreas verdes, sim, parques, praças, mas também precisamos pensar se estas crianças ocupam e têm liberdade para estar nas ruas. Não é só o espaço que é maior. Uma coisa é a criança brincar no quintal sozinha. Outra é conhecer e explorar o território que ela habita. Existem pessoas que moram no mesmo lugar, que crescem juntas num mesmo território, e que podem passar a vida sem se conhecer. A cidade grande tem um pouco dessa cultura de se fechar e perder os laços das relações de vizinhança. Isso não é bom. Com medo de perder seu patrimônio, o que as pessoas acabam perdendo são as suas relações.

Como assim? A rua é vista como algo ameaçador?

Sim. No primeiro semestre do ano passado, houve uma onda de assaltos no meu bairro. Percebi uma tendência entre os vizinhos de aumentar vigilância, subir muros e tal. Eles estavam se emparedando, criando uma paranoia no bairro. Achei que o movimento deveria ser o contrário. Quando a gente ocupa a rua, ela fica movimentada e isso intimida a ação de ladrões. Assim podemos aumentar a sensação de segurança. Se todo mundo se fechar, uma única pessoa que estiver passando na rua estará vulnerável. Já se todo mundo estiver na rua, um protege o outro. Eu tinha um desejo antigo de deixar minhas filhas brincarem nas ruas e achei que aquele era o momento certo. Estava um clima super tenso no bairro e isso marca. Minhas filhas estavam ficando com medo e percebi que era isso que estava sendo construído na memória delas. Queria muito que depois de adultas elas se lembrassem de como era brincar na rua, e não do medo que elas sentiam de estarem ali.

E o que você fez?

Entrei em contato com a associação de moradores e com algumas vizinhas engajadas do bairro e propus fechar um trecho da rua no bairro para uma manhã de brincadeiras, com piquenique coletivo. A recepção foi imediata, todo mundo adorou e a associação logo se tornou parceira do evento. As velhinhas lembravam de como era quando elas eram pequenas. Um ou outro vizinho demonstrou alguma preocupação com o trânsito, mas como a proposta era fazer aos domingos e por pouco tempo, não houve problema. Avisamos todos com antecedência e colocamos cones e cavaletes para controlar o trânsito. Escolhemos um trecho que não tem muito movimento e escrevemos cartazes simpáticos, tipo: “Desculpe o transtorno, crianças brincando”. Assim foi criado o movimento Já Pra Rua, que quer ser um contraponto ao clássico “já pra casa”. Temos que tirar as crianças de casa e colocá-las mais na rua.

Como são esses domingos? Há atividades dirigidas?

Funciona das 10h às 13h. Fechamos um trecho da rua e levamos giz para amarelinha, bicicleta, patins, peteca, badminton, bola de vôlei, corda, elástico. As brincadeiras são livres. A gente só dispõe as coisas e as crianças vão pegando. Fazemos também uma mesa de gostosuras para um café da manhã coletivo. Alguns vizinhos abrem as portas de suas casas para o uso de banheiros. Tem ainda o cantinho da leitura, para quem quer descansar. Tudo é feito em colaboração entre os vizinhos. Não gastamos quase nada, é uma questão de articulação mesmo. No último encontro conseguimos juntar cerca de 60 pessoas. O ponto alto é o jogo de taco. A maior parte das crianças nunca tinha brincado de taco porque esta é uma brincadeira que só acontece se tem muito espaço, em geral na rua. Os pais que brincavam na rua ensinaram as crianças.

Pelo visto, os adultos se divertem também…

Muito. É contagiante ver a alegria dos pais ensinando (e jogando junto) uma brincadeira da própria infância. Nessas horas a gente percebe como aquele clima tenso que estava antes, de medo, mudou totalmente. Minha intenção, no início, era só fazer as crianças brincarem na rua. De repente, percebi que aquela atitude tinha tido outra repercussão na rotina do bairro.

Qual?

Esta foi uma ideia que incentivou outras a acontecerem. A partir dos nossos encontros surgiram, por exemplo, grupos de caminhada pelo bairro. Antes, as pessoas estavam inseguras de saírem sozinhas. Agora, se juntaram em grupos. Percebi que aumentou a sensação de pertencimento do bairro entre os moradores, de pensar opções mais coletivas. Sem contar o impacto positivo nas minhas filhas: elas ajudam a fazer os cartazes, a separar as coisas, estreitaram laços com vizinhos. Foi muito marcante para elas.

Deu para fazer as pazes com as ruas?

A rua não precisa ser um espaço ligado apenas ao medo. Para as crianças, principalmente. Sempre tem alguém chamando a atenção, cuidando porque tem carro, é perigoso e tal. Claro que a criança tem que aprender os códigos de segurança, ter cuidado com carros e velocidade, mas precisamos construir uma lógica inversa: elas têm tanto  direito de estar ali quanto os carros. Nelson Mandela dizia algo como: “uma cidade que for boa para as crianças será um lugar bom pra todo mundo”. É isso. A criança é um indicador de qualidade. Se for legal para a criança estar na rua, assim será para todos nós.