Escola paulista derruba muros e redescobre o verde

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23 fev Escola paulista derruba muros e redescobre o verde

Diretora da escola Santi, situada a três quadras da avenida Paulista, muda os paradigmas da instituição e, com projetos simples, promove o contato – perdido – das crianças com a natureza

Por Mariana Sgarioni

Carros, barulho, fumaça, poluição, prédios, concreto. Esta é a rotina de quem passa pela avenida Paulista diariamente para chegar à escola Santi, em São Paulo. “Sempre que eu pensava em contato com a natureza, seja com meus filhos ou alunos, imaginava uma viagem para longe, algum lugar muito distante da escola ou mesmo da cidade”, lembra Adriana Cury Sonnewend, diretora geral da Santi. Isso até junho do ano passado, quando ela e sua equipe assistiram ao Seminário Criança e Natureza realizado em São Paulo e no Rio de Janeiro, que trouxe o jornalista Richard Louv ao Brasil pela primeira vez, para falar de seu livro “A Última Criança na Natureza” .

O seminário discutiu a conexão da criança com a natureza sob as mais diversas perspectivas. Ali, conta Adriana, a ficha caiu. “Não podia continuar privando meus alunos de todos os benefícios para a saúde física e mental que a natureza proporciona.”

Com medidas simples, e muita boa vontade, ela promoveu uma verdadeira revolução verde na escola. Paredes foram trocadas por janelas de vidro com vista para o jardim e luz natural. Hortas verticais, trepadeiras, minhocários, compostagens e uma dose de criatividade fizeram da Santi – uma escola cravada na selva de pedra – um oásis natural para quem chega ali. São 720 alunos, de 1 a 14 anos, envolvidos em processos que vão desde coletar lixo e folhas a procurar insetos, cuidar das plantas, fazer flores nascerem e promover exposições sensoriais. A escola, diz ela, passou a efetivamente fazer parte da vida dos alunos.

Na entrevista a seguir, Adriana conta como isso aconteceu, o impacto dessa mudança na vida e no aprendizado das crianças, e de que maneira – mesmo sem grandes investimentos – todas as escolas podem ter natureza. Basta querer. 

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Por que a Escola Santi passou a olhar para a natureza como parte importante do aprendizado?

Eu sempre tive muita clareza do quanto a natureza é importante na minha vida, do quanto estar ali me provoca bem estar e, principalmente, como o contato com elementos naturais foram decisivos para o adulto e profissional em que me tornei. Quando criança, meus pais tinham um sítio, onde eu cuidava de animais, brincava na lama, subia em árvores, nadava nos lagos. Entretanto, dentro da escola, sempre priorizamos outras perspectivas. A escola nunca teve um espaço enorme e é localizada no meio do caos urbano. Eu sabia que natureza era importante, mas… Com este cenário, fazer o que? Quando participamos do Seminário Criança e Natureza, percebi o quanto este assunto é sério e deve ser priorizado imediatamente pelas instituições de ensino. Eu não podia privar as crianças disso.

 E o que vocês fizeram a partir daí?

Em primeiro lugar, levamos este desejo de ampliar o contato com a natureza às professoras da educação infantil. A reação foi imediata e incrível! Todas se animaram demais e disseram que era exatamente isso que elas desejavam; algumas já faziam cursos paralelos e tal. Ninguém sabia que todos tinham esse desejo em comum. Nessa conversa percebemos que o pouco pode ser muito. Não seriam necessárias grandes mudanças. O primeiro passo seria mudar o olhar. Estávamos revisando os projetos de ciências naturais e levamos todas as possibilidades para a natureza. Pensamos desde coisas simples, como observar pássaros, até a produção de uma composteira.

 Como foi essa mudança de olhar? O que isso significou no dia a dia das salas de aula?

Antes de começar a fazer reformas ou sair plantando por aí, voltamos nosso olhar, como escolasanti_lamaeducadoras, para a natureza. De que maneira a natureza poderia permear todas as nossas ações? Não adiantaria nada só plantar uma hortinha lá fora. Em primeiro lugar, nossa preocupação foi a de envolver as famílias no assunto. Elaboramos diversas ações para isso. Uma delas foi pedir que os pais, junto com as crianças, coletassem folhas e outros elementos naturais  que encontrassem no caminho da escola. Com o que  foi coletado montamos uma exposição sensorial: em cada sala da escola havia um sentido diferente. Uma com aromas da natureza, outra com sons, outra com sensações táteis. As famílias ajudaram a montar tudo isso e também passaram a perceber melhor o entorno ao recolher os elementos nas ruas.

 As famílias aderiram imediatamente? Ou houve alguma resistência?

Nenhuma. Pelo contrário: ao perceberem a empolgação das crianças, as famílias aderiram na hora. Notamos que algumas famílias demonstram uma certa preocupação com segurança quando propomos passeios ou viagens – o que é normal. Mas, em geral, temos uma ótima aceitação.

 Conte um pouco das mudanças pedagógicas.

Na educação infantil, perguntamos para as turmas das crianças de 4 anos, como fazer nossa escola mais verde. A solução que todos encontraram juntos foi construir um jardim vertical no andar deles, feito com canteiros de garrafas PET pendurados com ervas e temperos. As crianças de 3 anos queriam ter mais bichos no jardim da escola. Eles foram descobrir que as flores podem atrair mais bichinhos, então plantaram e reconstituíram o jardim. Neste ano, começaram a ver os novos insetos que apareceram. O menores, de 2 anos, passaram a cuidar dos jabutis que viviam no jardim, com um rodízio dos responsáveis. As turmas de 5 anos fizeram minhocário e as de 6 estudaram como separar o lixo. Temos também uma horta comunitária e os alunos do fundamental são seus guardiões. Outro projeto para este ano é a Santi no Parque: queremos levar uma algumas turmas para ter aulas no Parque do Ibirapuera. Vamos trocar o espaço de dentro da sala de aula por um espaço aberto. Aliás, esta foi uma grande inspiração que o seminário Criança e Natureza me trouxe. Pensei: estamos do lado do Ibirapuera, por que não?

 Houve também reformas estruturais?

Sim. Foram reformas simples, mas que fizeram toda a diferença. Abrimos janelas e paredes parque_escolasanti(colocamos vidros e elementos vazados no lugar do concreto) para que haja uma vista para o jardim e uma pitangueira que temos. Colocamos uma trepadeira numa parede (tornou-se um lugar verde num espaço que nunca imaginamos). Substituímos parte do telhado por teto transparente. Fizemos uma horta vertical perto do restaurante e, neste ano, preparamos uma outra composteira bem grande, com estrutura de coleta.

 

Você sentiu diferença nos alunos depois dessas mudanças?

Sentimos um envolvimento total das crianças com a escola. O prazer delas, a empolgação, vontade de trazer os pais para perto para participarem. Resgatamos o prazer de estudar – é isso o que queremos afinal, não é? Aumentou muito a interação deles com o espaço da escola, eles se apropriaram desse espaço. Antes, o jardim estava lá e as crianças só passavam por ele. Hoje esse jardim é deles.

 É possível que qualquer escola inserida numa cidade grande possa trazer o contato com a natureza aos seus alunos, mesmo sem muito espaço?

Super. Existem iniciativas, como a da rede de educação municipal de Novo Hamburgo (RS), com estruturas muito pequenas. Talvez o principal seja uma mudança de olhar – isso não depende de espaço nem de dinheiro. Apreciar uma nuvem, ouvir os pássaros, brincar na chuva, andar descalço. Brincar livre, sem elementos estruturados. Trocar brinquedos de plástico por pedaços de madeira. Não custa nada e o efeito é maravilhoso.