Mais verde = mais saúde

Mais verde = mais saúde, por Thais Mauad

31 ago Mais verde = mais saúde

Os benefícios que o contato com a natureza nos proporciona, comprovados cientificamente

Thais Mauad cultiva um jardim cheio de plantas comestíveis não convencionais. Ela parou de comer carne e não tem carro, se movimenta a pé e em transporte público por São Paulo, onde vive. Ela ajudou a criar uma horta na faculdade onde leciona. Também colabora com a Horta das Corujas, uma horta em praça pública, e participa do Movimento Boa Praça, que articula vizinhos, poder público, instituições e empresas para ocupar e revitalizar as praças da cidade. Nem todo mundo que a conhece sabe dessas informações.

A faceta mais pública da Thais é a de cientista. Ela é médica patologista, professora doutora da Faculdade de Medicina da USP, especialista em patologia pulmonar, com ênfase em asma e outras doenças pulmonares obstrutivas crônicas.

Talvez a apresentação formal tenha mais importância ou credibilidade. Mas há um motivo aqui para juntar os lados da Thais: a profissional e a ativista. Um motivo belo e difícil de alcançar: ambos se articulam em sintonia, com total coerência. A Thais é uma médica que sabe – cientificamente, por seus estudos e sua vivência – do poder restaurador que a natureza tem.

Vários estudos comprovam que o contato com a natureza diminui o estresse. Há outros benefícios além deste, psicológico/emocional?

Sim, existem três efeitos que atuam em diferentes dimensões que a chamada “vitamina G” (de green – verde, em inglês), comprovadamente tem. O primeiro é o que foi mencionado, de baixar o nível de estresse. Alguns estudos feitos com ressonância magnética, mapeando as áreas do cérebro que são ativadas quando uma pessoa olha para determinadas imagens, mostraram que até mesmo imagens de natureza acionam partes do cérebro ligadas à emoção e reduzem os níveis de estresse. Quanto mais biodiverso for o ambiente, ou seja, quanto maior a variedade de plantas, flores, bichos e água, maior é o poder restaurador.

O segundo efeito tem a ver com a atividade física. Estar próximo a um local de natureza, um parque, uma praça, convida as pessoas a caminharem, fazerem exercícios, e isso tem um impacto enorme na saúde. O terceiro efeito é o de coesão social. Frequentar a praça do seu bairro, estar ao ar livre e encontrar gente, traz uma sensação de pertencimento que também traz bem-estar. O que ainda não foi medido pela ciência é o quanto, ou seja, quantas vezes por semana esse contato deveria ocorrer e que tamanho e qualidades  as áreas precisam ter para proporcionar benefícios.

Em um país como o nosso, com muita disparidade na distribuição dessas áreas, como interpretar os resultados de pesquisas?

Grande parte dos estudos são de lugares como Austrália, Canadá, Estados Unidos, Europa. Obviamente, precisamos levar em conta as características daqui, pois elas interferem nos resultados. Por exemplo: as nossas áreas verdes são pouco qualificadas. Muitos parques e praças estão abandonados ou mal cuidados. Outros locais têm grandes áreas verdes próximas mas elas acabam gerando receio e não são utilizadas. De todo modo, há vários estudos que mostram o quanto as árvores nos beneficiam. A arborização urbana tem um efeito muito importante na saúde.

Thais MauadQue tipo de efeito?

Árvores prestam serviços ambientais importantíssimos: elas ajudam a diminuir a poluição mais nociva, que é a de material particulado, já que o retêm em suas folhas; ajudam a controlar a umidade e a temperatura ambiente; previnem enchentes, absorvendo água do solo, e embelezam as calçadas, só para citar alguns. Ter uma árvore na sua porta ou perto da sua casa é um grande benefício, comprovado por estudos estrangeiros e brasileiros.

Você pode dar exemplos?

No Brasil, existe um grande estudo chamado ELZA que segue, há 10 anos, funcionários da USP. Ele mapeia vários indicadores (peso, atividade física, se a pessoa fuma ou não, status socioeconômico e também local de moradia) e monitora hipertensão e diabetes nessas pessoas. Já foram feitas duas ondas do estudo e ficou comprovado que as pessoas que moram em uma região com maior quantidade de árvores têm 7% menos risco de hipertensão. Se, perto de casa, em um raio de 1 km, houver mais de um parque, a chance de desenvolver hipertensão cai para 10%. São dados expressivos. Na cidade de Nova York, um estudo chamado “Green Streets: Urban Green and Birth Outcomes” comprovou que as mulheres grávidas que viviam em ruas mais arborizadas e estavam mais próximas de áreas verdes e azuis (beiras de rio) tiveram bebês com melhor desenvolvimento fetal e maior peso ao nascer. Ao mesmo tempo, há dois estudos da Faculdade de Medicina da USP que mostram que camundongos expostos à poluição concentrada de São Paulo têm filhotes com menor capacidade pulmonar. Ou seja, uma melhor arborização urbana teria o poder de mitigar vários problemas e seria economicamente vantajosa. A cidade de Nova York levou adiante um programa no qual foram plantadas 1 milhão de árvores que estão catalogadas e conseguiram calcular, em dólares, quanto cada árvore entrega à cidade com seus serviços evitando doenças, internações e gerando bem estar.

Você acha que, com esses estudos, em breve haverá médicos “receitando natureza”?

Sim, alguns pediatras estão fazendo isso, alertando as famílias para os benefícios do contato com a natureza, indicando que se restrinja o uso de telas. A questão, em uma cidade como São Paulo, é que fica complicado porque 60% das pessoas não têm acesso fácil a um parque. Estudos canadenses mostraram que escolas mais arborizadas, com áreas verdes qualificadas, com biodiversidade e que possam ser usadas pelas crianças, têm melhor desempenho. Podemos começar por quebrar o cimento, tirar as grades das escolas, criar áreas verdes e medir os resultados.

14344885_10208857864218522_5684055264124909620_nQue requisitos uma cidade deveria ter para ser saudável?

Primeiro, ela deve incentivar uma mobilidade ativa, a pé ou de bicicleta, com maior uso de transporte público. Isso diminui a poluição e faz as pessoas se exercitarem. Pedalar até meia hora por dia aumenta em 8 anos sua expectativa de vida. É essencial também dispor de quantidade e qualidade de áreas verdes para a população, bem distribuídas. E cuidar da alimentação, ou seja, estimular o acesso a alimentos de produção limpa por preços acessíveis, algo que a agricultura urbana pode oferecer. É preciso também garantir acesso a saneamento e água potável. Algo que passa, necessariamente, pela diminuição das desigualdades sociais. Essa seria uma cidade que promove saúde.

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