“Dá para fazer muito, com pouco”

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16 fev “Dá para fazer muito, com pouco”

De parquinhos orgânicos a geradores construídos com HDs de computadores quebrados, Peetssa monta o que  for preciso, onde se fizer mais necessário, utilizando elementos da natureza e materiais descartados

16/02/2018

26168596_10156097803746908_1072010782024601354_nFilho de um engenheiro e de uma socióloga, Peetssa (apelido que ganhou aos 11 anos e não mais o abandonou) era muito curioso e andava sempre com um canivete suíço no bolso. “Desde pequeno, roubava as ferramentas do meu pai. Na adolescência, transformei meu violão em guitarra usando uns amplificadores. Eu tive essa escola, meu pai sempre construiu os móveis da nossa casa. Então, eu sabia que existia essa possibilidade: não precisava comprar o que queria. Eu podia fazer”, diz.

Não por acaso, o menino que cresceu acampando e construindo com seu pai virou um ativista faz-tudo e inventor autodidata que entende de arte, elétrica, marcenaria, alpinismo, resgate em altitude e cavernas, bioconstrução… Hoje, Peetssa monta o que é necessário, nos lugares onde se faz mais necessário. De uma escola de bambu na Libéria, África, a geradores movidos a bicicleta na periferia de São Paulo, ele procura unir seus conhecimentos para construir de um jeito que a relação com a natureza fique mais equilibrada e amigável.

Você acredita que passar a infância em contato com a natureza te trouxe alguma vantagem? Qual?

Sim, com certeza! Ver plâncton brilhando no escuro, observar a Lua deitado na areia é algo totalmente diferente de ficar em um hotel à beira da piscina. Te traz uma experiência de encantamento, uma outra perspectiva. Tem também um aprendizado que é concreto, não virtual. Me lembro de uma vez que fui pegar uma coisa e senti um ardor na mão. Aí revirei o mato até ver do que se tratava: se era cobra, inseto… No fim era uma taturana. Você aprende a ficar mais esperto, mais alerta. Eu pescava lambaris com meu pai, e os mantinha vivos para servir de iscas para pescar robalos no mangue. Enquanto esperávamos os robalos morderem a isca, catávamos caranguejos. Você vê um ciclo que se completa, entende de onde as coisas saem. Peixe não é aquilo que está no balcão do restaurante.

26840826_1610219895738812_5173806167950134104_oComo você evoluiu para a ideia de construir o máximo com material local?

Durante a criação de um gerador, reencontrei um amigo de infância que trabalhava na Funai, com bases de vigilância e proteção de índios isolados, na Amazônia. Ele me convidou para construir uma base sustentável. Ficamos um ano na Amazônia. Estávamos a cinco dias de distância da civilização mais próxima. Não dava para carregar nada até ali, nem ficar lá impactando o meio ambiente. Então, precisávamos fazer tudo com recursos locais, com o que tínhamos. Aquela foi minha grande escola de carpintaria. Construímos alojamentos, oficinas, um posto de saúde, banheiro seco, aquecedores com energia alternativa, composteiras … Ali aprendi a simplificar ao máximo o material, para que tudo possa ser consertado, sempre. E vi como é importante treinar as pessoas para que consigam fazer isso.


Depois vieram trabalhos na África e nas periferias de São Paulo…

Fui ajudar a construir uma escola feita com entulho, pneus, barro, bambu e outros materiais reutilizados, com técnicas de bioconstrução, na Libéria, África. Fizemos quatro pavilhões, para atender a 350 crianças. Ali vi que é possível fazer muito, com bem pouco. Depois, no jardim Miriam, zona sul de São Paulo, montei, em parceria com o grupo Contrafilé, um “Parque para Brincar e Pensar”. Tínhamos alguns recursos do Ministério da Cultura e a disposição da comunidade para trabalhar. Ampliamos a área fazendo terraços de pneus e entulho, construímos brinquedos, uma área para bebês e também um gerador de energia movido a bicicleta: quando o pessoal pedalava, acendia as lâmpadas, iluminando tudo. Esse lugar foi feito quase inteiramente por mulheres e crianças.

 

Como foi a experiência de construir com crianças? Elas mexiam em ferramentas. É algo viável?

De tanto programa mostrando horrores na TV as pessoas acham que vão sair na rua e morrer. Mas não adianta privar a criança de tudo, é preciso que elas conheçam também os perigos para saberem se proteger. Na minha escola, por exemplo, tinha marcenaria. E todo mundo alguma vez deu martelada no dedão. Mas é usando que a gente aprende. No jardim Miriam, eu fazia uma roda com as crianças, mostrava para cada uma como mexer numa coisa e uma furava, outra parafusava, outra apertava… É preciso ter um pouco de coragem. A vida precisa ser vivida, tem de sair, passear, se expor e viver a liberdade. O mesmo acontece com a saúde: quem fica em ambientes desinfetados demais não cria anti-corpos. Quem nunca brinca não aprende a cair, presta menos atenção. Se você não tirar as crianças da frente da telinha e as colocar em uma situação real, não vão ter agilidade, atenção.

26047141_10156097949906908_5108609091816899138_nTem algum brinquedo que as crianças apreciem mais? Os mais desafiadores ou os contemplativos?

Depende muito, o ser humano é muito diverso. Tem crianças que amam atravessar uma corda bamba, tem outras que preferem ficar no seguro. Mas a corda bamba ou slack line é quase sempre sucesso, porque a gente já tem o equilibrista no imaginário. A tirolesa também, afinal, é quase voar! Em geral, tudo o que tira as crianças do plano, seja pular tocos, subir numa pirâmide, enfim, o que coloca o corpo para trabalhar em outra situação, agrada.

Às vezes, pneus ou outros materiais reciclados não ficam esteticamente tão bonitos. Você acha isso um problema?

Acho que as crianças nem reparam nisso! Agora estou construindo um parquinho orgânico, praticamente feito de bambu, madeira, coisas encontradas no mato, mais cordas e cabos de aço. Acho que o material tem de estar seguro, a madeira lixada, ele não pode oferecer perigo. Mas as crianças se conectam com a sensação que aquele brinquedo traz, com o desafio que ele apresenta. E coisas muito legais podem ser construídas com simplicidade e ficar bonitas. Todos são capazes de inventar e produzir com o material disponível no local. Acho isso revolucionário. Por isso meu lema é: “todos têm poder”.

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