Educação, saberes e natureza: o que aprendemos ao ar livre?

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15 out Educação, saberes e natureza: o que aprendemos ao ar livre?

S262074_226065670758896_1061766_nilvia Lignon, diretora-fundadora da Escola Amigos do Verde, é uma entusiasta-participativa das infâncias, educação e natureza, se assim podemos dizer. Com uma longa trajetória de mais de 30 anos como educadora, ela destaca e tem como método de trabalho e de vida a escuta amorosa e o reconhecimento de que não há outro caminho senão a valorização e crença na natureza e na interdependência do planeta e seus habitantes. Caminho fundamental inclusive em tempos de pandemia. “Precisamos ir além da compreensão mental sobre preservação, mas de verdade sentir amor para comprometer-nos com a regeneração da natureza. Na escola, isso se dá por meio de formações vivenciais, construções de espaços coletivos, uso do lado de fora da sala para uma simples fogueira, sentir o vento ou olhar para o céu. Necessitamos de práticas simples, que vão além do discurso, onde a percepção do nosso corpo reverbera nessa “virada de chave” para, por fim, partir dos professores e ressoar nos alunos”.

Boa leitura!

Raika Julie Moises

Que contribuições da experiência da Escola Amigos do Verde podem ser compartilhadas como metodologia de aprendizagem e ensino para toda a sociedade?

Percebemos, nos alunos e ex-alunos, uma consciência e responsabilidade por eles mesmos, pelo grupo (não somente no sentido de liderança, mas de parceria e colaboração), no “fazer e aprender”, construindo juntos, desfrutando e se sentindo natureza. Isso se dá através de práticas simples, como harmonizações (exercício da presença), projetos de estudos (consenso para temática, planejamento, realização e socialização pelo grupo e professores), resoluções de conflito que vão além de julgamentos ou de uma visão dualista (certo ou errado), aproveitando o conflito para realizar uma escuta interna. Podemos citar também as rodações (semelhantes a uma assembleia), o conselho de classe com participação dos alunos, as aulas-passeio e as viagens não tradicionais, alinhadas ao momento. E a inclusão de diferentes situações familiares, econômicas, sociais, raciais ou limitações físicas, emocionais, mentais etc. Vale citar que já há muitos anos trabalhamos com sistemas de bolsas de estudos para alunos em situação econômica desfavorável e, assim, por exemplo, já recebemos alunos que moravam em comunidades indígenas e quilombos, enriquecendo a experiência de toda a comunidade escolar. E por aí segue a diversidade de dinâmicas escolares….


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Diante do cenário atual, como garantir que a parcela mais vulnerável da população tenha acesso a uma educação de qualidade, que preze e respeite a diversidade, a inclusão e possibilite protagonismo e escuta dos estudantes?

Acredito muito, porque vivo e vejo os resultados, no caminho da formação da equipe. Uma formação agradável, prazerosa, integradora, nutritiva, que proporciona o processo de transformação pessoal, com os alunos em sala de aula, com a equipe da escola, e reverbera em toda a comunidade educativa, resultando em uma reconciliação entre todos, alinhados ao “servir à educação”, para esse cenário, sempre no agora. Esclarecendo que esse cenário muda muito rápido, e que estar atento ao que a educação busca e transformar no sistema (não reproduzir) exige um tempo veloz, atenção, responsabilidade e agilidade para essa realização coletiva.

Em muitos casos, a escola é o único local onde crianças e adolescentes têm contato direto com a natureza, entretanto, nem sempre os profissionais de educação conseguem garantir esse contato. Que caminhos podem auxiliar nessa construção e, consequentemente, quais os benefícios e dificuldades dessa ação na relação entre estudantes e educadores? 

Voltando à resposta anterior, assim como muitos alunos, os professores não têm ou poucos tiveram experiência para, de fato, acreditarem que somos natureza, assim como perceber seus benefícios individuais e planetários. Precisamos ir além da compreensão mental sobre preservação, mas de verdade sentir amor para comprometer-nos com a regeneração da natureza. Na escola, isso se dá por meio de formações (não teóricas mas vivenciais), construções de espaços coletivos, uso do lado de fora da sala para uma simples fogueira, sentir o vento ou olhar para o céu. Necessitamos de práticas simples, que vão além do discurso, onde a percepção do nosso corpo reverbera nessa “virada de chave” para, por fim, partir dos professores e ressoar nos alunos.

A cidade pode ser educadora? Se sim, quais as contribuições que a escola, o poder público e a sociedade como um todo podem oferecer para que se dê esse processo?

A cidade somos nós, a escola, o poder público, a sociedade civil, os espaços coletivos, os eventos… Sentirmo-nos responsáveis e a serviço da cidade e, assim como cuidamos do nosso corpo, da nossa casa, podemos cuidá-la. esse lugar, ela se torna educadora, porque aprendemos com ela e por ela. Saímos do papel de vítimas, da queixa, e trocamos pelo papel de responsáveis e ativos. É um novo estar, olhar e atuar na cidade.

121178400_1704508589696230_3593002969554059613_nSe você fosse uma escola, quais seriam as suas características e que propostas você faria para a comunidade escolar (estudantes, profissionais e território)?

Se eu fosse uma escola, gostaria que as características centrais dela fossem a escuta amorosa e a reconciliação para tudo que já foi, para tudo que é e a todos nós. Perceber a quem a escola está servindo, valorizar as relações e a forma como vibramos nelas para possibilitar uma mudança de paradigma (em detrimento da competição, escassez, controle…). Valorizando o velho para me transpor ao novo, que eu não sei qual é, mas ao qual estou aberta, deixando a vida me surpreender, soltando as certezas… Em síntese, buscaria focar no exercício de uma comunicação com escuta amorosa, em presença realmente presente, trazendo um movimento de reconciliação entre a comunidade educativa: educandos, educadores e famílias.

Considerando que muitos estudantes, particularmente os da rede pública, não têm acesso de qualidade (ou sequer acesso) ao ambiente digital, como a tecnologia, associada aos processos educativos, pode contribuir para o letramento e construção de saberes que levem em conta a diversidade, o contato com a natureza e a inclusão nos ambientes escolares?

Primeiramente, precisamos desconstruir esses saberes eurocêntricos e nos abrirmos para a descolonização, principalmente para os alunos em situações economicamente desfavoráveis que, sim, têm uma riqueza de saberes não valorizada. Valorizar a riqueza dos percursos desses alunos, bem como de seus pais, seus antecedentes e suas histórias, é urgente. Resgatar e honrar esses conhecimentos vai impulsionar os alunos para as novas conquistas. Este pode ser um bom começo, com o mínimo de tecnologia. Aqui, os processos educativos terão significado e a motivação levará ao letramento como ferramenta de registro e expressão de vida.

Quais foram os caminhos que a escola encontrou para mante119471595_1685117624968660_4987816513484821469_nr/garantir o contato e vínculo das crianças e professoras/es com a natureza durante a pandemia?

É hábito da escola o vínculo com o lado de fora: desde o lanche até atividades específicas e também as professoras/es mantendo esse contato com a rua, com atividades ao ar livre. A transformação para o ambiente digital, online, começou logo no início da pandemia, com atividades semanais para a educação infantil e para os professores. As demais turmas tiveram encontros diários por plataformas digitais e também encontros individuais com professores. Sempre mantivemos a presença da natureza nestes encontros, com sugestões com alimentação, observação da natureza e construção com elementos naturais. Também mandamos para os alunos kits com elementos da natureza: gravetos, materiais para escalda-pés, pedras, inclusive com coisas da escola. A reação das crianças foi incrível! E as famílias registraram esses momentos, onde a alegria das crianças confirmava esse vínculo. Esse retorno, os depoimentos das famílias também nos fortaleceu. Porém, foi um período de altos e baixos… algumas famílias precisaram de ajuda, de uma atenção específica e nós fizemos uma escuta amorosa. Reconhecemos a situação privilegiada de parte desse grupo, mas oferecemos também apoio financeiro, de equipamento e estrutura para àquelas famílias que têm essa necessidade.

120949495_1703613739785715_1247551253101496399_nE a saúde mental da comunidade escolar: profissionais, estudantes e famílias?

Nós apostamos no vínculo e na responsabilidade compartilhada. O corpo profissional da escola se colocou sempre presente junto de todas as famílias e também convidamos das famílias para estar junto conosco. Essa troca e a manutenção desse vínculo foi o caminho para sair do conflito e seguir o caminho da conciliação, da partilha. Essa travessia só está sendo possível porque estamos unidos, nos apoiando.

O que podemos (e devemos) aprender com a natureza?

Adorei a pergunta!!! A natureza nos ensina o tempo todo com suas serendipidades (novidades, descobertas), é só estar atento a ela, em todos os sentidos: pessoal, social e planetário.

SAIBA MAIS

BRINCAR AO AR LIVRE E CONSERVAÇÃO DA NATUREZA: UMA RELAÇÃO PROFUNDA!

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