Natureza pra quê?

Crianças na floresta

05 set Natureza pra quê?

Cláudio Maretti, especialista em áreas protegidas, explica o valor e os serviços que a natureza nos proporciona 

Ter áreas de natureza preservada nos ajuda ou impede nosso desenvolvimento econômico? Quanto valem os ecossistemas? Cláudio Maretti, doutor em geografia, consultor e especialista em áreas protegidas, e vice-presidente da Comissão Mundial de Áreas Protegidas da UICN (União Internacional para Conservação da Natureza) para América do Sul, esclarece essas e outras questões.

O que é exatamente uma área protegida? 

Área protegida é um termo utilizado internacionalmente para designar o que, por aqui, chamamos de “unidades de conservação”. São áreas delimitadas e definidas por um instrumento legal, como a Constituição ou uma lei federal, com o intuito de proteger a natureza entre seus limites. Historicamente, essas áreas podiam ser sítios sagrados ou reservas de caça. Depois, entrou-se na era dos Parques Nacionais, que tentavam preservar também um símbolo local, como as Cataratas do Iguaçu ou o Corcovado, no Rio. Hoje, o termo inclui áreas de governos locais, como parques estaduais, e também reservas privadas, como o Sesc Pantanal, por exemplo. Entram ainda áreas de proteção de mananciais, áreas de interesse cultural e terras indígenas. São locais que podem ter uma gestão pública ou privada, mas contam com um orçamento e devem ter um plano de gestão. Elas constituem o principal instrumento já criado pela humanidade para defender a natureza.

Por que é importante proteger áreas naturais?

Crianças pulando

Nosso modelo de desenvolvimento predominante é desmatar, lucrar com o que se retira da mata, e depois transformar em pasto ou área cultivável essa terra. A questão é que está sobrando muito pouco! Dois terços dos ambientes do mundo foram convertidos ou degradados e há 1 milhão de espécies em risco de extinção, segundo a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), que monitora biodiversidade, políticas públicas e ecossistemas. Por isso, é importante proteger áreas naturais. Elas permitem que a sociedade tenha acesso à natureza, são espaços de lazer e turismo, que promovem maior qualidade de vida e saúde para quem está próximo, e prestam enormes serviços para toda a humanidade.  Além de preservar espécies e ecossistemas que têm direito à vida, essas áreas garantem à humanidade ar mais puro; água de qualidade e com regularidade; equilíbrio térmico; diminuem as ondas climáticas e reduzem a incidência de desastres. A natureza protegida permite que o impacto das mudanças climáticas seja menor e que possamos nos adaptar a essas mudanças conservando fontes de água, preservando os manguezais e os recifes da nossa costa. Isso sem falar nas novas pesquisas e descobertas que podem vir a gerar. 

O presidente tem dito que o Brasil “protege demais” e que precisamos de desenvolvimento. Isso é verdade? 

O Brasil não é o país que mais protege sua natureza, como tem sido alardeado. Mas nós temos, sim, uma grande área protegida, concentrada na Amazônia e no oceano. Ao mesmo tempo, vivemos uma carência de unidades de conservação próximas às áreas habitadas e desenvolvidas, urbanizadas. Além de faltarem áreas para preservar outros biomas, como o Cerrado e a Mata Atlântica. O prejuízo econômico de não proteger essas áreas é imenso.

Para falar em desenvolvimento, é preciso analisar quem ganha e quem perde quando se explora economicamente uma área. Hoje, quando alguém invade terra protegida na Amazônia para garimpar, essa pessoa lucra individualmente, mas gera um dano ambiental que é de toda a sociedade. E nem sequer paga impostos, ou seja: não traz nenhum benefício ao bem comum. Dizer que para aumentar a produção agropecuária é preciso desmatar também é um falso argumento. Então, precisamos desenvolver atividades econômicas que preservem a natureza. Alguns estudos demonstram que para cada real investido no turismo em uma unidade de conservação, gera-se outros 7 reais na economia da área onde essa unidade se encontra. É um número altíssimo e o Brasil tem um enorme potencial turístico. As áreas de conservação rendem também com atividades controladas de extração, como de castanhas, açaí ou pesca, por exemplo. Ou seja, são um ótimo investimento econômico se tiverem incentivos e um bom plano de gestão.

Além disso, precisamos contabilizar os serviços que prestam: menos mortes, menos desastres, mais saúde… Porque isso é um valor! Quando calculamos o impacto dos acidentes de trânsito, por exemplo, incluímos quanto o SUS gasta para tratar as pessoas. É preciso fazer o mesmo com as áreas protegidas. Em países como Austrália ou Japão, eles contabilizam os ganhos à saúde que elas proporcionam.

Como melhorar a visitação às áreas protegidas?

Criança e florestaAcho importante que se continue o programa de concessão de serviços para visitação. Um bom exemplo é o do Parque Nacional do Iguaçu: ele tem apenas 15 funcionários e recebeu um recorde de 1,8 milhões de visitantes em 2018. Seria impossível, com esse quadro, oferecer todas as atividades que estão disponíveis para os turistas. Com critérios adequados, uma empresa privada pode fazer o que o Estado não está capacitado para fazer, por meio de um contrato de concessão. Em muitos parques, esse apoio à visitação tem bases comunitárias, com guias e pousadas locais. Ou está organizado com voluntários. Independentemente do modelo, é importante que essas atividades existam, porque elas alavancam a economia e a infraestrutura. O que não dá para ter é uma postura fechada, impositiva: “enquanto não houver isto e aquilo, não abriremos para visitantes”. Claro que é preciso manejar a visitação, para que ocorra de modo sustentável e benéfico, mas não se pode virar uma fortaleza. E é preciso um mínimo de investimento para que as pessoas tenham acesso, aeroportos para chegar, locais onde ficar, apoio.


Temos também de promover uma mudança de mentalidade. Por que nossa população prefere um shopping center ou um fim de semana na frente da TV a um piquenique no parque ou um passeio em meio à natureza? Temos de transmitir a informação de que natureza é lazer, diversão, saúde. E receber bem as pessoas, com investimento em programas ambientais e de visitação, em infraestrutura.

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