A participação das crianças pode transformar as cidades

Foto: Prefeitura de Jundiaí

03 fev A participação das crianças pode transformar as cidades

Para se tornar uma Cidade Amiga das Crianças, Jundiaí criou em 2018 um comitê com 28 crianças do Município, que se reúnem mensalmente para discutir e pensar o lugar onde vivem. Sylvia Angelini, diretora de urbanismo da cidade, contou pra gente sobre como a política funciona e sua importância para a valorização do potencial educador do território.

Na sua visão de gestora pública, em que consiste uma cidade amiga da criança?

É uma cidade que proporciona um conjunto de vivências e experiências para as crianças, que contribuem para seu pleno desenvolvimento físico, cognitivo, psíquico e emocional. Uma cidade amiga da criança deve ter, entre outras coisas:
Segurança nos deslocamentos – a pé, de bicicleta, de ônibus ou de carro, especialmente nos trajetos cotidianos, como o caminho entre a casa e a escola.
Qualidade dos espaços públicos – parques, praças, ruas e calçadas, que apresentem elementos lúdicos e incentivem o convívio social e o brincar.
Presença da natureza – mais árvores, jardins, gramados, fontes, rios, campinhos de terra e areia,  para contemplação, contato e diversão de crianças e adultos.
Estas condições favorecem o processo de aprendizagem das crianças, incentivando sua autonomia.

Como foi o processo de elaboração do Plano Diretor da Cidade de Jundiaí? Quais as principais limitações vivenciadas e o que ajudou a superá-las?

Foto: Prefeitura de Jundiaí

Foto: Prefeitura de Jundiaí

O processo de revisão do Plano Diretor de Jundiaí teve início em 2017, no Fórum de Avaliação do Plano Diretor, e se estendeu por dois anos até sua aprovação (Lei Municipal n° 9.321, de 11 de novembro de 2019). Pela primeira vez, o plano diretor apresenta um capítulo dedicado exclusivamente à criança na cidade, que define com clareza os objetivos e as diretrizes das políticas públicas para garantia dos direitos das crianças no espaço urbano. Há certo consenso entre os adultos de que as cidades precisam ser mais amigáveis e menos violentas para todos, principalmente para os mais frágeis. Os conflitos surgem no momento de definir como isso deve acontecer – por exemplo, ao propor a redução da velocidade de automóveis em algumas ruas da cidade.

Como oferecer espaços públicos que sejam atraentes para todas as gerações?

Primeiro, reconhecendo as necessidades de cada faixa etária e oferecendo equipamentos que atendam aos seus interesses específicos. Depois, proporcionando espaços de convivência entre as gerações, ambientes que possam ser partilhados por avós e netos, pais e mães com crianças pequenas ou filhos adolescentes. 

Essa diversidade, não apenas de idade mas também de gênero, de classe social e de estilo de vida, é uma das melhores formas de promover a identificação das pessoas com o território – o que ajuda na conservação dos espaços, além de trazer uma sensação de vitalidade urbana e segurança social.

Como envolver crianças e adolescentes no processo de planejamento urbano?

Foto: Prefeitura de Jundiaí

Foto: Prefeitura de Jundiaí

É preciso oferecer oportunidades para que a criança e o adolescente digam o que gostam ou não gostam na cidade, quais suas demandas mais importantes e quais as soluções que eles imaginam para os problemas apontados. No ano de 2018, foi criado em Jundiaí um Comitê de Crianças, formado por 28 meninos e meninas de 8 a 10 anos de idade, de diferentes partes da cidade. Eles se reúnem uma vez por mês para discutir a cidade e eleger prioridades, apresentadas ao final do ano ao chefe do Executivo. Em dezembro de 2019, o prefeito recebeu a carta das crianças e se comprometeu a atender alguns dos pedidos. O documento traz propostas como a construção de praças com espaços para brincadeiras em todos os bairros da cidade, instalação de radares de velocidade em frente às escolas e aponta ainda sugestões como a construção de um parque público para crianças de todas as idades, a redução da poluição, o reforço na arborização e a proibição da venda de armas à população. O “Comitê das Crianças” e as “Ruas de Brincar” são exemplos de programas que dão protagonismo às crianças nas tomadas de decisão, e reforçam a importância do brincar. São ações que resultam da parceria do Município com o Instituto Alana – Programa Criança e Natureza – e da adesão à Rede Latino-americana de Cidades das Crianças. Jundiaí é o primeiro município do estado de SP e segundo no país a integrar esta Rede, logo após Boa Vista, em Roraima.

Por que uma cidade amiga da criança é boa para todos?

Porque é uma cidade mais humanizada, mais divertida, mais segura, onde o ritmo acelerado dos adultos pode dar espaço ao tempo de descoberta das crianças, à curiosidade, à criatividade, à delicadeza. É uma cidade onde as calçadas convidam para caminhadas e os espaços públicos incentivam o convívio social. Onde a natureza não é apenas cenário, mas parte da brincadeira. Onde é permitido pisar na grama e subir em árvores. Como diz o educador Francesco Tonucci, crianças são como vagalumes – indicadores de qualidade ambiental. Quando não estão por perto, é sinal de algum desequilíbrio no sistema.  Esta é uma imagem que acho linda!

Saiba mais:

MISSÃO TÉCNICA – FREIBURG, ALEMANHA

POR QUE É PRECISO ESCUTAR AS CRIANÇAS?

RUAS DE LAZER