Meu caso de amor com o brincar na natureza

Sobre a grama, há um pequeno “tatu” construído com uma pinha e um pedaço de caixa de ovos.

16 abr Meu caso de amor com o brincar na natureza

A fotógrafa e designer Estéfi Machado conta como a natureza a ajudou durante o confinamento causado pela pandemia.

Sou uma pessoa muito urbana. Mesmo. Eu gosto do caos, da confusão, do movimento, dos sons que a cidade faz. Gosto muito de ver a cidade tomada por gente de todas as formas, cores e sabores. Ando a pé pelas ruas, vivo os cantos feios e bonitos com a mesma intensidade e moro em um prédio, no meio do buxixo com vista para… prédios!

Tudo isso seria muito interessante e de certa forma engraçado, não estivéssemos nós no meio de uma pandemia. “Meio” é uma forma eufemista de contar que estamos sem horizonte, literalmente.

Tudo isso que contei aí em cima caiu por terra quando eu me vi, obrigatoriamente, tendo que ficar dentro de um espaço sem céu, sem sol no corpo, sem terra e sem grama. Por tempo indeterminado.

Uma mão segura uma “abelha” construída com uma pinha, folhas e pequenos galhos.

Abelha Rainha feita com elementos naturais por Estéfi Machado.

Aqui em casa, vivemos o isolamento social para valer. Não vejo ninguém há mais de 1 ano, não encosto em meus pais e irmãos, por nós e por eles. Não abraço amigos e meu filho não convive com outras crianças.

Para não enlouquecer e ter nossas almas minguadas, o que conseguimos fazer, de quando em quando, é fugir para o mato para lembrar como eram essas coisas tão distantes como pisar na grama, mexer na terra, pegar limão no pé, sentir cheiro de chuva e, com sorte, até queimar a pele na taturana.

Em todas as investidas que fizemos nesse cenário, eu sempre saía com alguma coisa muito encantadora feita lá, usando materiais que colhia nos meus passeios pelos arredores: galhos, folhas, flores, sementes, barro, cascas, musgos e ramos indefinidos. Parecia que tudo queria ser alguma coisa.

Quem conhece meu trabalho sabe que faço isso com certa facilidade, transformo objetos ordinários e peças desestruturadas em brincadeira. Mas veja só, nem eu mesma sabia que faço isso muito bem – quem sabe até melhor – quando estou na natureza!

Agora eu quero colocar umas aspas nesse “na natureza”.

Não existe essa coisa de estar “na natureza”, como quem compra um ingresso, entra e sai, como hóspede ou convidado. Não. Nós somos A própria natureza.

Quando estamos fazendo parte de verdade desse plano enorme e lindo é que somos integralmente humanos. E durante essa pandemia, eu que era a Rainha da Teodoro Sampaio, me vi em outro tempo, outro ritmo, olhando pras coisas com outros olhos. E como essas coisas têm tanto a dizer!

m ambiente externo, dois troncos pintados viram “duendes”.

Troncos pintados viram “duendes” no Almanaque de Ideias Craft para Fazer na Natureza.

Galhos que querem ser fadas, flores que querem subverter os significados de tudo.

E a criança tem isso de nascença. É um drive muito natural pra eles. Eles estão com um pé lá nesse lugar onde ainda não se separa homens da “natureza’, como se isso fosse possível.

Andei refletindo muito sobre isso, observando o efeito que essas idas ao mato causavam em mim e no Teo. Em uma dessas noites urbanas na cidade resolvi assistir o documentário O Começo da Vida 2: Lá fora.

Meu encantamento era tanto que eu ficava falando sozinha com a TV, concordando com a cabeça, dizendo sim, sim, sim, é isso! O documentário me mostrou lindamente o que eu mais acredito: a criança precisa viver a natureza para poder cuidar dela. Ninguém cuida do que não conhece, esse conceito não pode ser subjetivo e teórico, ele precisa vir de uma verdade maior.

Fui dormir com as ideias fervendo e no dia seguinte me debrucei no computador, compilei as melhores brincadeiras que tinham nascido exatamente dessas idas ao mato e criei o Almanaque de Crafts para Fazer com elementos da Natureza.

Minha ideia era que todo mundo tivesse acesso a esse material e se sentisse chamado a ver tudo isso que eu vejo. A enxergar possibilidades, a transformar o entorno. Ir para o lado de fora para olhar com mais cuidado para o lado de dentro.

E cá estou eu, sentada no meu apartamento urbano, escrevendo para vocês e contando os dias para ir pra fora. Para poder estar do lado de dentro. De novo.

 

A designer e fotógrafa Estéfi Machado sorri e segura uma vela de estrelinhas.Estéfi Machado 

Mãe do Teo, designer, crafiteira, cenógrafa, fotógrafa,  escritora e autora de O Livro da Estefi e de um blog que há 8 anos compartilha ideias de brincadeiras entre adultos e crianças para inspirar os pais a se conectarem com seus filhos através do Brincar. Pregadora do Brincar, Estéfi acredita que a brincadeira pode salvar o mundo.

 

* A opinião retratada no texto não reflete necessariamente do programa Criança e Natureza